sábado, 29 de janeiro de 2011

CRASH - NO LIMITE




“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”. Uso como pretexto esse famoso trecho do poema “Quadrilha” de Drummond para pensar metaforicamente não apenas os vínculos de afeto, mas também as inúmeras teias que formam as relações de poder em toda sociedade. Até pouco tempo, a questão das relações de poder era vista de maneira bem simples e esquemática: dominantes X dominados. Essa “grande equação”, que por vezes levava àquela outra do bem X o mal, contudo, pode revelar certas simplificações, justamente porque também é possível entender o poder, a dominação entre sujeitos e as relações de subordinação como elementos de um campo muito mais complexo de interesses. Nesse sentido, o premiado filme “Crash – No Limite” oferece um rico quadro de análise.

Crash, ganhador do Oscar de melhor filme em 2006, é resultado de um engenhoso roteiro que mescla de maneira inteligente várias estórias entrecruzadas. O cenário é a cidade de Los Angeles (EUA) e os conflitos entre seus habitantes de diversas etnias, profissões e classes sociais. Cada uma dessas estórias traz algo em comum: no fundo, são estórias que revelam conflitos de poder e de tolerância. Algumas delas são exemplares. O policial racista que humilha um casal de negros, mas também não consegue para seu pai um tratamento de saúde que dependeria de uma atendente negra; Os asiáticos que fazem contrabando de asiáticos, o árabe (persa), discriminado por sua origem, mas que destila seu ódio em um latino. E, uma das cenas mais curiosas, a “dondoca” (Sandra Bullock) que oprime sua empregada, Maria, mas, na hora em que mais necessitou, foi desta, e não de suas “amigas”, que obteve solidariedade. Em todas essas situações, os personagens revelam a paradoxal situação de serem opressores e oprimidos, intolerantes e intolerados.

Calma, essa percepção “horizontal” do poder não elimina a idéia anterior, do poder como algo também exercido coletivamente e pelo próprio Estado. Todavia, Crash ressalta a idéia de uma “microfísica do poder”, na perspectiva do pensador francês Michel Foucault. Para Foucault, o poder não é monopólio de uma instituição nem é exercido unilateralmente. O poder, tal como o amor, envolve a tudo e a todos. O poder não está fora dos sujeitos e de suas mais intimas relações. Parafraseando o poema “Quadrilha”, o poder envolve João, Teresa, Raimundo, Maria, Joaquim, Lili e até “J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história”.





Vladimir Luz, professor do curso de Direito da UNESC.

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