segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Memórias I – Vó Conceição

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Todas as manhãs, um ritual: o cheiro inigualável do café. Mesa posta. A “farda” do colégio já estava passada. Eu ainda ficava na cama por algum tempo. Meticulosamente, para que eu pudesse dormir um pouco mais, ela colocava as minhas meias, bem devagar, e eu, mesmo acordado, fingia estar dormindo. No caminho da escola, ela me dava a mão. Uma mão áspera de quem passou pelos fardos da vida; mas uma mão igualmente terna e segura, de quem queria, até com excesso, zelar e guiar os Seus. O caminho era curto, mas lembro de cada passo. É assim que me recordo das manhãs com minha Vó Conceição. De tudo que passamos doravante, as brigas, os conflitos, resta ainda essa imagem, a do menino que fui, franzino, acanhado, que ia para escola todas as manhãs com um sentimento único: o de não estar sozinho no mundo. Até hoje quando sinto aquele cheiro inigualável de café, quando rumo para o trabalho, e me acomete um certo estranhamento da vida – sensação de quem pensa muito nas coisas desse mundo – relembro de quando ela me dava sua mão. Então, sem pensar, sigo, sigo...

Um comentário:

  1. Eu nunca fui de ler blog, pra ser sincera foi um dos primeiros, ou o primeiro trecho que li até o fim em um blog! Geralmente não me encontrava, nem sentia vontade de chegar ao fim, mas devo dizer que me fez muito bem ler o seu , me fez lembrar de passagens da minha vida, dos meus avós, e principalmente dos meus pais, dos momentos bons, da maneira sigela de quem sempre quer agradar, aquelas frases repetidas de pais para filhos, como forma de ensinamento, as risadas em família... e mais, muito mais...
    e finalizo com meu agradescimento, por seu texto, de uma simplicidade tamanha, mas de coração.

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