sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A GRANDE BELEZA



"O mundo é uma obra de arte que engendra a si própria'
(Nietzsche, Vontade de Potência)



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Não era uma questão de opção: ele estava destinado à sensibilidade. Deitado em sua cama podia ver o mar no teto com todo aquele azul intenso e infinito. Ondas, ondas. Da sacada de seu apartamento, o Coliseu se abria aos olhos como um quadro. Outrora homens ali morreram e se divertiram, sangue e risos foram gravados em cada tijolo daquelas colunas magistrais. Mas sempre ela, sempre ela, a sensibilidade. Festas, riso, dança, sexo, rotina, e sempre ela a espreitar, a sensibilidade. Ele era assim não por simples decisão, era seu mandato ser um observador metafísico, mundano, irônico e incrédulo dessas coisas intensas e ao mesmo tempo ridículas que somos. 

No meio disso tudo, por certo, havia uma busca inaudita. Quem saberá? Mas o fato mais latente é que havia uma profundidade imperceptível em toda superfície, e ele bem sabia disso. Fenomenologia, diriam os doutos. Cada detalhe, como as reentrâncias das esculturas do Capitólio,  cada gesto humano, por mais fútil e banal, espancava-lhe a sensibilidade inata e bruta. Era como não se lhe fosse dado o direito de ignorar que, mesmo com toda sua grandiosidade, há frestas no Coliseu. As ruínas são os corpos esquecidos do novo. O novo esta nas fissuras. Seres humanos participam compulsoriamente desse enredo. Basta ver o que se gravou em cavernas, papiros, pergaminhos e blogs. Pobres animais falantes, irremediavelmente jogados na consciência do constante vir-a-ser, que buscam, inconscientemente, gravar algo sólido e imemorial no presente fugidio. Tudo então se resumiria  essa longa história depois do verbo , a frestas e rugas, pedra e carne. No pó das ruínas sim, ali havia uma essência, séculos de ontologia: início e fim. Por tudo isso, amiúde ele percebia que em cada gesto humano há uma clareira, um enclave, um lugar cinza entre o velho e o novo, um campo agônico entre o grandioso e o fútil. Por isso, então, temos a arte, essa testemunha parida das coisas que só a sensibilidade captura. E ele olhava tudo isso com aquele olhar de quem já viu muito, viveu muito. E mesmo com tanto, escrevera apenas um livro. Para que mais? Para que? O final já não é por demais sabido desde o início? Festas, riso, dança, sexo, rotina e ela, sempre ela, a sensibilidade; aquela que não o deixaria nunca, mesmo agora quando tudo já tinha o cheiro ácido do tempo. Jep Gambardella acabara de completar 65 anos.

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Li muitas coisas sobre o festejado filme de Paolo Sorrentino "La Grande Belezza". Coisas como: a influência de Fellini, Roma como cenário, a multiplicidade de temas num roteiro não linear, um conflito entre o novo e o velho, clássico e pós-moderno, uma crítica à futilidade da sociedade e à superficialidade da arte contemporânea, decadentismo, brevidade do tempo, existência, hedonismo, enfim, um filme pretensioso... Respondo a tudo isso com “Jepinho”: blá, blá, blá.

Nada disso, isoladamente, parece-me tão relevante assim. Ainda que haja, de fato, todas essas questões – o que já faria do filme algo genial –, "La Grande Belezza" trata, em verdade, de algo infinitamente relevante e sutil: a experiência da vida como uma experiência estética. Aí a coisa pega, e pega a todos nós. Ademais, não só por Roma e pelos personagens caricatos vemos a presença de Fellini em “A Grande Beleza” como dizem insistentemente os críticos. O grande maestro se faz presente no elemento onírico que atravessa todo filme, mitigado, é certo, pelo estilo próprio de Sorrentino. O que atravessa é o absurdo da realidade e do cotidiano, dos tipos humanos, o ridículo que convive com a beleza, e, em meio a tudo isso, ao lado de toda superficialidade, do medo e de todas as belezas, há sempre a grande beleza, aquela que não precisa de uma razão controladora. Ela é. Para a grande beleza, há também uma “grande arte”. É essa experiência estética em estado bruto que chega, que toca. Tudo isso é decantado finamente num roteiro propositalmente repleto de experiências e tipos humanos: o padre (cotado a Sumo Pontífice) que jocosamente foge dos assuntos sérios e espirituais e fala de receitas, a vida mundana de novos ricos e suas festas bregas, os nobres decadentes com suas mansões suntuosas, a religiosa tratada como “santa”, a pintura contemporânea feita por uma criança que joga tintas aleatoriamente em um painel. No centro do filme esta o olhar de Jep Garmbardella, um “bon vivant”, um cético jornalista que escrevera apenas um livro, e que vive os tormentos do tempo e a lembrança da mulher que amara. É neste aspecto sutil que o filme "La Grande Belezza" pode ser chamado, sem exageros, de obra-prima: exatamente pela experiência estética proporcionada pelos olhos de Jep Gambardella. Jep somos todos nós. Dessa identidade humana é que se faz a grande arte.

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Jep Gambardella escrevera apenas um livro. O que ainda há por ser dito? Tudo já foi descoberto pela razão. As coisas inevitavelmente passam. Pessoas morrem. Frestas ficam. Cicatrizes. Talvez possamos, à noite, encontrar aquele amigo que é o guardião das chaves dos palácios para então passear por entre os salões da tradição e assim trapacear com o tempo. Talvez possamos nos fechar ao falatório do cotidiano. Ir ao silêncio dos antepassados e beber dos clássicos seu vinho raro. Tocar o mármore primevo do sentido com o cinzel utilizado pelo demiurgo que deu forma e vida a tudo isso que não se explica. Mas Jep sabia que não há escapatória: há festas, riso, dança, sexo, rotina e ela, sempre ela, a sensibilidade. No fundo, o instante desencontrado do amor é a grande arte, seja ela o que for.

Por tudo isso é que não se consegue sair do cinema imediatamente após o término de a “A Grande Beleza”. Letras descem (ondas, ondas) e lá ficamos, paralisados. Entramos em nosso Coliseu. De repente, por segundos, pairamos em um território inóspito de nós mesmos, onde girafas, cadeiras e o cinema desaparecem. É que ela, mais uma vez ela, sempre esteve ali: nesse lugar que às vezes voltamos, mesmo sabendo que tudo é um truque.

Bravo!


08.02.2014
Vladimir Luz




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