segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

SUA ESCRITA


Quisera eu escrever assim

Como um dia em Laranjeiras
Uma tarde em Botafogo
Um pôr-do-sol na Gávea
Um olhar perdido na Tijuca
Naves em Niterói

Escrita como um amor instantâneo
Como essas pedras colossais
Granito e suor

Quisera eu escrever assim

Com vísceras
Com alma (lavada ou não)
Ser que recusa ser ente
Pão saído do forno
Café no copo
Sono abraçado
Uma mão que se estende entre praças
Monumentos de prazer e ócio
Corpos que se devoram (na esquina do Leme)

Quisera eu escrever assim

O Rio seria palavra inaudita
Ferida
Partida
Encontro

Aí sim - eu escreveria como você.


20.01.2014

Vladimir Luz
(Revisão, diagramação e afins de Rosane Serro)



domingo, 24 de novembro de 2013

POEMA PARA DANÇAR EM CASAMENTOS

...

Quando a porta se abriu
E a voz, ao fundo, cantarolava
O sol pode se abrir
O tempo sorriu
Todos dançavam
E não havia rancor em seus olhos
Beijos do passado, nem nós atados
Apenas imagens de cristal
Caleidoscópios
Ao longe
Pés na grama, cachorros latindo
Riso discreto da menina do canto
Abraços tão forte como o vento do sul
Foi, assim, como num filme
Alaridos, serpentinas
Crianças correndo pela sala
Medos solenes em vinho
Couraças de papel
Partituras de chocolate
Amarras de algodão
Sapatos de nuvens
Portas de espuma
Carinhos de ondas
Nucas de morango
Afagos de proparoxítonas
Sexo onomatopaico
Calafrio sem pudor
Máquinas de escrever
Muitos lá-menores
Sustenidos
Com sétima
e..
Quando a porta se abriu
Solenemente
Eu pude dizer
Sim










sábado, 26 de outubro de 2013

REVOLUÇÃO


 ....


Por onde anda a sua revolução?
Talvez ela esteja escondida nos pequenos afazeres do dia
Tímida, entre o banho e o café da manhã
Acanhada, cismada, observando as cores da TV
Sua revolução abraça o travesseiro em noites de insônia
Espera ligações que nunca chegam
Em cada segundo do dia sua revolução rumina lembranças
Caiando de vermelho o céu que nos observa
O mesmo céu dos antigos, moldura do homo sacer

Por onde anda nossa revolução?
Perdida em sonhos – quiçá os mesmos de antes
Corpos perfilados, pólvora e morte
Nossa revolução se esconde nesses abraços apertados
Nesses olhares que nunca se encontrarão – quiçá outros doravante
Revolução sem ganhadores nem perdedores
Uma revolução mesquinhamente libidinal
Carne e suor

E foi assim que tudo aconteceu
A revolução chegou silenciosa
Abriu as janelas
E, num desses dias de calor carioca,
Nua
A revolução se fez



26.10.2013
Vladimir Luz







domingo, 20 de outubro de 2013

AFROEMAS – Xangô (100 anos de Vinicius de Moraes)


...



Para quem tudo foi tirado – Todos são iguais perante a Lei?
Para os que viraram coisa – famélicos do mundo!
Para os que rondam os palácios de mármore – Construídos por quem?

Eis a sombra do fogo que desce o caminho
Vermelho, sangue de tantos
Eis a justiça, epieikeia – Oxé!

Para os que erguem tribunais espúrios – atiram a primeira pedra?
Para os sacerdotes da verdade –  vendilhões que buscam templos!
Eis a sombra do trovão, Zeus – Yorubá

Para os que têm sede de justiça  – urdidura do presente
E não perdem a ternura
Jamais.

20.10.2013
Vladimir Luz


sábado, 19 de outubro de 2013

AFROEMAS – OXOSSI (100 anos de Vinicius de Moraes)


Flecha da vida - cortante
Flecha do destino

Fronte luzente, melanina
Fronte de muitos

Canto que cruza o Atlântico
Olhar penetrante, silêncio
Mata, urbe, pólis
Golpe

Flecha da vida – cortante
Flecha do destino

A força de tantos – liberdade
Vida que teima, renasce
Andar sobranceiro, vitória
Eros, Aruanda
Ofá, afeto

Flecha da vida - cortante
Flecha da vida - poesia
Sempre
    
  
19.10.2013

Vladimir Luz

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

VINICIUS


Vi partidas
Armadilhas
Vi emoções
Ilusões
E se me fecharam os olhos
Vi poesia
Vi inicios
Vinicius

18.10.2013
Vladimir Luz

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

EPÍGRAFE

...

Nem tanto amor nem tanto ódio O que mata é a indiferença
Nem vitória nem derrota O que enoja é a falta de utopia
Nem inteligência nem burrice O que nos condena é essa brutal ausência de espanto
Isso serve para mim, serve para nós...
Nem pecado nem luxúria A questão está no medo de viver
Nem tanto a juventude nem tanto velhice O tempo é um só
Nem inícios nem finais O sentido está no caminhar
Tudo isso pode não servir E que assim o seja Para mim e pra nós
10.11.2007 Vladimir Luz
Imagem: Carta do Tarot de Osho