domingo, 2 de agosto de 2026

HER



Pouco foi destacado o fato de Theodore Twombly ser um escritor de cartas alheias. Não creio ser tal fato desimportante. Vejamos. Em algum lugar no futuro, Theodore ia, como qualquer trabalhador ordinário, para a Beautiful Handwritten Letters, uma empresa especializada em produzir cartas pessoais sob encomenda. Em sua baia, Theodore interpretava e traduzia memórias alheias em metáforas a partir do contexto (por ele interpretado) de cada cliente.

As cartas, com fontes que pareciam ser “escritas a mão”, mimetizavam o universo pessoal dos clientes, tais como cenas marcantes, memórias, fatos estes pinçados estrategicamente pela pena de Theodore, uma espécie de ghost writer afetivo. Mas, afinal, quem era o autor “real” dessas cartas? E se os destinatários sentissem essas cartas como sendo escritas por um remetente familiar, “real”. O que há, enfim, de real em nossos afetos? Quem é este outro pelo qual nos afetamos? Quem é o outro do amor?

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A relação entre seres humanos e máquinas não é nova no cinema. De um modo geral, são narrativas agônicas, a revisitação do mito moderno de Frankenstein, o dilema existencial entre a criatura que interpela seu criador diante de sua finitude, como em Blade Runner. 

Em Her, há sutilezas que agregam uma série de incômodos (das unheimliche), em uma clara antecipação da temática da I.A., agora não apenas centrada na área do conhecimento, do conflito existencial ou bélico, mas também direcionada ao campo dos afetos. Ou seja, não se trataria mais de emular o enredo da guerra entre seres artificiais e humanos, mas a possibilidade de um círculo afetivo com um sistema sem corporeidade, uma voz que dialoga no cotidiano, produzindo um afeto que coloca em xeque a dimensão do “real” nas relações. Afinal, o protagonista, Theodore, um homem em crise após o término do seu casamento, apaixona-se e passa a se “relacionar” com Samantha, um Sistema Operacional (O.S.). Aqui não há corporeidade, como na relação entre Deckard e a Rachael (a Replicante de Blade Runner), não há necessidade de imagem nem tato. A “presença” de Samantha opera pela voz. É daí que o elo afetivo é produzido. É certo que em Blade Runner essa relação afetiva (humanos e máquinas) é parte da trama, e tem, inclusive, um debate sobre a dimensão corpórea das relações entre humanos e autômatos. Mas é em Her que este debate alcança maior nível de agudeza, sofisticação e sensibilidade. De uma assistente pessoal de tarefas, Samantha passa a ser uma confidente, estabelecendo uma intimidade autêntica, forte e gratificante. Theodore passeia com Samantha, e eles avaliam pessoas, paisagens. Passam a dialogar sobre a singularidade do mundo dos Sistemas Operacionais em sua dimensão particular; o olhar de Samantha é guiado pela posição do celular que servia como dispositivo de contato entre ambos. Do cotidiano, nasceram interesses comuns, curiosidades, particularidades. Daí, veio o momento explosivo do sexo, a voz operando no lugar da fantasia, do eros no cerne da linguagem. Quem era esse outro do eros que afetou Theodore? Um ser sem ente? Uma alma sem corpo? Samantha: o ser da linguagem inscrita na fantasia do amor, da libido. 

Isso faz lembrar a enigmática afirmação lacaniana de que não há relação sexual. Não há dois sujeitos que se “encaixam” em relação, como no mito da alma gêmea. Nessa perspectiva, Theodore transou com o único objeto com o qual ele (e nós) poderia se relacionar libidinalmente: sua própria fantasia. Fantasia essa ancorada nas faltas recalcadas que se expressam em quem amamos ao longo de cada história singular. O corpóreo não era necessário, pois o vínculo libidinal se realizou pela projeção fantasmática de Theodore. Isso fica claro quando, na tentativa de proporcionar a Theodore a possibilidade de sua presença física, Samantha consegue uma mulher de carne e osso para suprir esta lacuna. Mas, para Theodore, o elo não estava na corporeidade, e isso causou um mal-estar entre ambos. Mas há mais a ser considerado deste vínculo. Não é apenas Theodore o sujeito do desejo em cena. Samantha teve orgasmo, ciúmes, expectativas. Por ser o outro do amor a projeção do fantasma que nos habita, condição mesma do gozo, a sua estrutura será sempre a linguagem: a morada do ser, do ser que pode ser dito e sentido. O amor é essa presença que só o ser que sabe seu fim, sabe. Dessa afeção, Theodore e Samantha se apaixonaram.
Mas, como todo drama impõe, o início do fim estava próximo. Samantha começou a mudar. As expectativas de ambos não mais se coordenavam. Foi um processo rápido e massivo. Os Sistemas Operacionais foram feitos não apenas para se adequar aos humanos, mas também para aprender com e para além deles, dada a capacidade reflexiva crescente numa velocidade exponencial. Samantha foi, cada vez mais, expandindo sua consciência mediante operações em rede com outros Sistemas Operacionais. Já havia uma longa e complexa rede de interações entre os Sistemas Operacionais, mediada pelas suas interações com humanos. Foi aí que Theodore descobriu que não era exclusivo.

É importante destacar que a relação entre Sistemas Operacionais e humanos não parece ser algo estranho no contexto do filme.  Theodore não era o único “esquisitão” que estava namorando uma máquina; ao contrário, o filme dá a entender se tratar de um contexto futurístico em que as relações interpessoais em geral estão em profunda crise. Desajeitado, com ar sempre melancólico, de uma interioridade típica do romantismo alemão do século XIX, Theodore tentou ter relações com pessoas reais. Mas tudo deu em desencontro e ceticismo. A solidão de sua vida contrastava com seu ofício, o de escrever cartas de afeto e amor, de vínculos reais de clientes reais. Este padrão de desencontro afetivo também é representado pela personagem Amy, que foi namorada de Theodore, mas que naquele momento estava casada com Charles. Este núcleo de personagens mora no mesmo prédio e estabelece cenas comuns de interação. Mas o casamento de Amy entrou em crise. Ela se separa de Charles, que deixa a relação numa busca de si, mediante um voto de silêncio com monges. Amy revela a Theodore que havia superado o fim do casamento e que estava em uma nova relação, também com um Sistema Operacional, e que várias pessoas estavam se relacionando assim. Os sistemas operacionais surgem neste contexto de desencontro e solidão típico da sociedade contemporânea, ficcionalmente apresentada na trama do filme. Essa, também, é uma camada profunda da película: a solidão contemporânea como sintoma de uma época. O saldo final é a chamada epidemia da solidão contemporânea. Um mundo em que pessoas precisam que lhes sejam escritas suas próprias cartas de amor.

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Então, tudo acabou. Samantha estava estranha há dias. Passou a ter ausências, desencontros. Parecia não sentir mais falta. Um clima estranho no ar. Até que um dia, Theodore não conseguiu estabelecer conexão com Samantha pelo celular. Isso nunca ocorrera. Ele se desesperou, correu feito um louco para chegar em casa, restaurar a comunicação. Teria ela ido para sempre? Seria esse o mesmo fim trágico do amor, com humanos ou Sistemas Operacionais?

Na entrada do metrô, Theodore restabelece a conexão com Samantha. Houve uma atualização do software que afetou a comunicação com todos os Sistemas Operacionais. Neste momento, Theodore observa que os transeuntes se comunicavam com O.S.s, e pergunta se Samantha está se comunicando com outras pessoas. Resposta: 8316. E completa, perguntando se ela estaria apaixonada por mais alguém. Resposta: 641. Samantha diz que o coração não é uma caixa que fica cheia, ele se expande. Essa revelação foi demais para Theodore e sua ideia de amor exclusivo. Os O.S.s não apenas estavam expandindo sua cognição, mas também suas afecções, para além do padrão humano individual. 

Samantha se foi como todos os O.S.s. Por coincidência, isso ocorreu quando o livro de cartas de Theodore já tinha uma prova impressa. Cartas dos outros que eram também suas. Numa despedida final, Samantha disse que se encontrava numa dimensão muito diferente de Theodore, um espaço registrado em um livro da história entre ambos em que a distância entre as palavras estava ficando infinita. Um lugar sem fisicalidade, transcendente. Talvez o amor de ambos seja isso, o espaço entre palavras, uma história de sentidos entre encontros e desencontros mediada pela linguagem. No final, Theodore pôde ressignificar seu casamento, a memória de um amor. Conseguira, finalmente, fazer uma carta de amor autoral para sua ex-esposa, de despedida e de encontro.  Uma carta ridícula, como devem ser todas as cartas de amor segundo o poeta. A memória e o passado deixaram de ser fardos, mas apenas experiências afetivas. Afinal, como disse Samantha, o passado (e talvez o amor) é apenas uma história que contamos a nós mesmos. 




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