domingo, 2 de agosto de 2026
HER
domingo, 15 de março de 2026
HAMNET
*
Agnes é alma da floresta. Foi ali
que aprendeu, com sua mãe, os segredos das ervas e os mistérios da natureza.
Tinha um olhar de musgo, de pedra e de abismo. Fez-se gente na inconstância das
coisas, nos fluxos entre semear, cuidar e colher, nos interregnos entre vida e
morte. Sabia lidar com unguentos, poções, folhas. Tal qual uma sacerdotisa,
Agnes também fazia presságios, sabia das coisas do futuro. E, entre raios de
sol filtrados pelas copas das árvores, nutria-se de uma força telúrica.
Alimentava-se de raízes fincadas num tempo ancestral, profundo e misterioso, mas
também coloquial, mundano, livre.
Esse mesmo tempo pareceu
suspender-se quando seu olhar-terra encontrou o olhar-água daquele homem, um
olhar tão diferente do seu que ela não teve dúvidas desde o início. E foi assim
que, contrariando o presságio de que teria apenas dois filhos, da mistura entre
terra e água Agnes deu à luz Susanna e aos gêmeos Judith e Hamnet. Desde então,
nada mais seria como antes.
Will era feito de palavras e de
silêncios. Seu olhar era como um lago, e havia uma singela beleza na melancolia
daquele olhar. Isso produzia certa estranheza, um ar unheimlich, meio gauche,
pois ele parecia sempre um pouco deslocado das coisas do tato, do toque, da
concretude do mundo. Pretensioso, diriam alguns. Dar aulas de latim, costurar
luvas, qual seria o verdadeiro ofício de Will, esse paridor de palavras, numa
sociedade forjada na rudeza dos realistas? Para muitos, ele não passava de “um
homem comum, qualquer um, enganando entre a dor e o prazer”. Seu olhar-água
apenas espelhava o ofício submerso de artista.
Afinal, o que seria de nós se
aquilo que “não tem nome, nem nunca terá” não encontrasse abrigo na arte, essa
coisa ao mesmo tempo desnecessária e fundamental? Com tal ethos, Will vivia
preso ao dilema masculino de prover a vida concreta, as vicissitudes entre a
sobrevivência imediata e a explosão de sentidos que lhe vinham das palavras.
***
Apesar de Agnes e Will terem
origens familiares marcadas pela violência parental, a família Shakespeare era
feita de uma afetividade viva, presente, autêntica. A casa emanava essa vida
simples, entre terra e água, rica de afetos e das singelezas do cotidiano.
Se a tarefa fundamental dos pais
é legar aos filhos o inconsciente de seu desejo, Agnes e Will foram, nesse
ponto, bem-sucedidos. Na família Shakespeare, a transmissão se fazia pela fusão
dos desejos de ambos. Ensinar aos filhos os mistérios da vida, o uso das
plantas, o cuidado com os animais, o respeito aos ciclos de morte e luto, as
alquimias do passado, a coragem diante da aspereza do cotidiano, sempre
acompanhada do amor pelo lúdico, pela palavra, pela arte, pelo gesto.
Quando estavam juntos, o amor de
Will e Agnes impregnava a casa de uma rara afetividade partilhada. Agnes,
porém, nunca esquecia a profecia de que teria apenas dois filhos. Poderia ela,
mais uma vez, enganar o destino?
****
Hamnet era um menino predestinado. Tinha muito de seu pai. Nascera subvertendo o adágio das moiras. Depois de parir Judith, Hamnet veio de surpresa, afinal, o presságio falava em apenas dois filhos. Dada como morta logo após o parto, Judith, nos braços da mãe, respirou e retornou ao mundo dos vivos. Estaria sendo a profecia burlada? Entre os três irmãos, o vínculo entre os gêmeos era especialmente delicado, como se também soubessem que haviam violado o destino e que, por isso, precisassem cuidar um do outro com redobrada atenção.
Mas, quando Will estava em
Londres, a sombra do destino enfim chegou. Hamnet quis exercer seu papel de
curador de Judith e acabou tomando para si a doença que afligia a irmã. Antes
de partir, Agnes pergunta ao menino o que ele deseja ser. Hamnet responde que
quer trabalhar como o pai e atuar em peças.
Will não estava presente quando o filho morreu. Foi Agnes quem lutou contra o destino, quem o segurou nos braços, quem ouviu seus gritos de dor e enfrentou o último instante, numa dor cortante, quase impossível de nomear. Ela decidiu que não perdoaria Will, não pela morte do filho, mas por não estar ali, por não ter compartilhado aqueles últimos segundos de existência. O casamento dos Shakespeare nunca mais seria o mesmo. O olhar-terra e o olhar-água pareciam destinados a não mais se encontrar. Will continuou em Londres, até que Agnes, tomada por uma fúria silenciosa, decide ir à cidade vê-lo e assistir à peça que carregava o nome de seu filho, Hamlet.
No dia da encenação da peça, na plateia,
todos estavam hipnotizados pela saga do jovem príncipe da Dinamarca,
atormentado pelo desejo de vingar o assassinato do pai. Quando Agnes vê o filho
em cena, revolta-se num primeiro instante, como ele ousa usar assim a memória
de nosso filho? Mas, pouco a pouco, algo se desloca. Ela se deixa envolver,
junto com todos os outros, pela magia que apenas a arte pode produzir. Somente
a arte consegue reunir desconhecidos na mesma dor, no mesmo lugar de
existência.
O jovem Hamlet, heroico,
atormentado, belo, encarnava algo que todos reconheciam sem saber nomear. “Ser
ou não ser” ecoava pelos corações da plateia, emocionada e atônita, dos plebeus
aos nobres. E quando, perto da morte, Hamlet estende os braços e toda a plateia
também estende os braços com ele, e um feixe de emoção atravessa Agnes. Pela
primeira vez, ela sorri. Não é um sorriso de alegria, nem de consolo, é algo
mais rofundo, como se naquele instante ela compreendesse que o desejo do
filho se cumprira pela arte e que, diante da fragilidade e do desamparo da
existência, estamos todos na mesma peça e no mesmo palco.
E foi assim que, da coxia, o
olhar-água de Will reencontrou o olhar-terra de Agnes.
*****
Um último registro.
Quando, ao final do filme, os braços na tela se estendem tentando alcançar a emoção da personagem, confesso ter tido a estranha sensação de presenciar algo singular, aquilo que muitos chamam de grande arte, grande beleza. Algo cujo sentido exato talvez o tempo consiga ruminar.
Não penso, assim, que Hamnet seja apenas
um filme sobre o luto. O luto, como as alegrias, faz parte da vida. Hamnet é,
antes, sobre a arte. Este palco sem roteiro em que, às vezes, precisamos tocar,
juntos, coisas indizíveis para continuar a próxima fala, o próximo ato, mesmo
que, no fim, tudo seja silêncio.
sábado, 8 de julho de 2023
GOL
Painho
falava pouco. Eu achava que era comigo. Depois, descobri que era o jeito dele.
Nos poucos momentos em que ele falava, eu gostava de ouvir sua voz grave. Mal
via seus lábios mexendo por baixo do bigode grisalho. Ele tinha umas tiradas,
uns gracejos sobre qualquer situação. Depois, na Faculdade, descobri que o nome
disso é chiste. Também tinha aquelas frases, adágios que ele repetia direto,
tipo “só acaba quando termina”. Sempre que a coisa parecia sem solução, Seu
Geninho soltava o “só acaba quando termina”. Também descobri que, sob a casca
daquele homem de olhar grave, de pouca intimidade com estranhos, havia um humor
refinado. E que o humor pode ser uma ética, uma sabedoria. Painho, seu Genivaldo, Geninho para meus
tios, era assim: disciplinado, calado, mas bem-humorado. Todavia, se o gelo
fosse quebrado e ele lhe desse ousadia... Ai... Você iria do céu ao inferno.
Ele gostava de samba e do trabalho. Era motorista da linha São Cristóvão – Barroquinha.
Se orgulhava de ter uma filha que fez Faculdade na Federal. Um dos poucos
momentos em que vi meu pai sorrir e chorar foi na minha formatura, quando ele
teve de me entregar o canudo, e, num breve momento, nossos olhos se cruzaram, e
eu vi a alegria de sua alma. Mãinha era sua grande companheira. Ele dizia que
éramos as donas dele. Eu achava diferente. Eu achava painho uma espécie de rei
africano, solene e altivo. Filho de Xangô, não tolerava injustiça. Quando via
uma injustiça, sai debaixo... Injustiça é sempre a covardia com o mais fraco,
dizia. Também na Faculdade estudei isso. Sobre autoridade, a justiça e a
injustiça. Seu olhar de reprovação era pior que um tapa. Era como se seu amor
fosse expresso no rigor. Ele dizia “Sou pelo justo, nem mais nem menos”, e bufava:
“Runf...”.
Além
de mim, mãinha, a firma e o samba, sua outra família era o Esporte Clube Bahia.
O Baêa era uma das poucas coisas que tirava painho do sério. Aquele ser de ar formal
se transformava em dia de jogo. Talvez as poucas vezes que vi painho xingando
era quando o Bahia entrava em campo. Se bem que, “disgraça”, na Bahia, nem
xingamento é. Ele gritava “disgraça de juiz” o tempo todo. Não sobrava um, ele
picava a porra na mesa, ficava uma fera. Nem era bom se meter com ele nessas
horas. Eu tenho um tio gaiato que traiu nossa família e se bandeou pro lado do
time do Vice, o Vicetória, essa carniça. Quando o Bahia perdia, meu tio Felício
ligava (naquele tempo era telefone de disco e nem existia celular), e era pra pirraçar painho. Viviam se ofendendo por causa da rivalidade da gente com o
pessoal do Lixão. E, no dia que meu tio chegou em casa depois que o Bahia perdeu
um BA-VI? Ave Maria... Foi um rebuliço naquela casa. Esse mesmo tio, uma vez,
contratou um carro de som, para, de manhã cedo, ficar tocando o hino do
Vicetória na frente de nossa casa, ali na Mouraria. Menino, nunca esqueço: meu pai nem tinha areado
os dentes, desceu virado na zorra e foi discutir com o homem da Kombi, coitado,
que apenas foi pago para realizar aquela cena! Hoje, eu penso que essa
rivalidade, com tons teatrais, era o que havia de mais precioso e genuíno na
relação deles.
Painho
me levou em vários jogos do Bahia na Fonte Nova. Cresci com a memória da
descida da ladeira da Fonte, as cores, o zum zum zum... Esses fatos ficaram na
memória, nas minhas lembranças dos momentos que tive com ele quando jovem, como
no dia da formatura. Há também uma lembrança que me pego degustando até hoje.
Quando ele me levava para escola algumas vezes. E, no caminho, me perguntava
das coisas da escola, e também comprava mingau com a senhora que ficava na
frente do Colégio Central. Ele colocava canela no mingau. Adorava café, e vivia
de prosa com os meninos do carrinho do café, empreendimento móvel que só existe
em Salvador, o que deve ter adiado a vinda dessas franquias chiques de café
para esses lados. Até hoje, o cheiro de canela me faz lembrar desse caminho. Incrível,
né: um cheiro, uma cor, uma música nos transportam para lugares e tempos
distantes... A verdadeira máquina do tempo são os sentidos. A outra lembrança marcante
que tenho foi quando ele me levou na Fonte Nova antiga. Eu era pequena, mas já
tinha minha camisa tricolor. Era um BAVI, final de campeonato, o Bahia precisava
apenas de um empate para ser bicampeão baiano, mas estava perdendo de um a
zero.
Painho
estava mais nervoso do que o de costume. Xingava o tempo todo. Eu me lembro da
torcida impaciente. Meu sentimento, naquele dia, era confuso: estava alegre por
partilhar com painho aquele dia especial de ver o Baêa, mas nervosa com a
apreensão dele. O risco do “destriunfo” era grande. Eu queria ganhar, e não
suportava imaginar a pirraça dos vicentinos se aquele placar nos tirasse o
título. Painho segurava com a mão seu radinho de pilha colado no ouvido; ele só
ouvia a Sociedade AM. Pensei em alguns instantes: aquele ser era sempre tão
seguro, mas quando estava diante de um jogo de futebol, revelava, finalmente,
as fraquezas do humano. A fortaleza Geninho, enfim, mostrava suas fragilidades
a meus olhos de criança. E estávamos ali, juntos, agoniados e torcendo. Acho
que meu amor pelo futebol e pelo Baêa vem daí. Penso, a partir disso, que a
verdadeira herança que nossos pais podem nos legar são seus afetos. Depois, eu
descobri, pelos livros e me vendo pelos espelhos da vida, que eu queria, pelo
meu desejo de ter o desejo de painho, ser parte do seu amor, o Bahia. Estudei
isso mais tarde na Faculdade, e depois, já no exercício de meu ofício – que
consiste basicamente em fazer com que as pessoas se ouçam ao falarem para mim
–, todas essas questões foram ficando mais sensíveis.
Naquele
dia, tudo para mim se resolveria se o Bahia fizesse um gol. Bastava um gol para
nos libertar; bastava um gol para eu poder gritar com meu pai e com a massa.
Pois bem. Já estávamos no finalzinho do segundo tempo, e o Bahia precisava apenas
de um golzinho para ganhar o campeonato baiano. O tempo passava rápido, 42 minutos
do segundo tempo. Eis que, quando tudo parecia perdido, depois de um bate e rebate,
a bola sobra na entrada da área, e um jogador do Bahia aproveita, chuta e...
GOL! Não sabia o nome daquele jogador na
época, só sabia que ali estava um herói. Eu meio que duvidava dessa estória de
heróis. Quando era pequena, meus professores diziam que heróis eram só os dos gregos;
tempos depois, descobri que há muitos outros heróis, como minhas avós, que
seguraram a onda de toda uma geração. A gente só está aqui pela luta dos que
vieram antes. E, assim, fui descobrindo esse heroísmo do cotidiano, da
ancestralidade por vezes sem voz. E nessa minha aprendizagem, entre estudos e
Fonte Nova, passei a decorar os nomes de alguns jogadores do Bahia. Havia os
mais famosos, por causa do título nacional de 1988, Charles, e a eterna
elegância sutil de Bobô. Mas eu também sempre fui meio assim, como se diz, “do
contra”. Um astrólogo me disse que é por causa do meu signo, Aquário. Não
acredito em horóscopo. Quer dizer, só quando a previsão é boa pra mim. Por causa
desse meu jeitinho, eu sempre olhava para além do que todo mundo enxergava. Por
isso, eu gostava de um herói de 1988 nem sempre exaltado, Paulo Rodrigues, que,
para mim, era a personificação da metáfora “jogar de terno”; também tinha Baiaco,
“o pulmão tricolor”. Metáforas bonitas da zorra, vamos combinar...
Então, nesse dia eletrizante, esse gol foi o
gol libertador, o do título! Os gregos (de novo) têm uma palavra pra isso, mas
esses aí também não tinham mais o que fazer, não tinham uns “corre”, e ficavam
inventando palavra pra tudo. “Cartarse” é a dita palavra. A torcida explodiu de
forma catártica. Ou, como falamos aqui, “lavamos a alma”, uma lavagem das
escadarias das igrejas de nossos desejos. Foi isso. Em meus ouvidos reverberava
o barulho dos fogos. Todos pulavam. Era aquela energia, que, anos depois, pude
vivenciar, na pipoca do Chiclete passando pela Avenida 7, subindo a Castro
Alves. Foi aí que, depois do gol salvador, olhei para painho: seus olhos
estavam marejados, voz rouca, gritando: “Bora Baêa minha Porra!!” Após o jogo, painho
me colocou sobre seus ombros, “na cacunda”, como dizia, e saímos em cortejo da
Fonte Nova. Era maravilhoso ver todos pelo alto, gritando alegremente. A festa
foi longe...
Sinto
falta da voz de painho. Às vezes me pego ouvindo ele praguejando nos corredores
da casa. Em dias de jogos do Bahia, como hoje, essas coisas
batem mais fortes. Fecho os olhos e tudo me aparece vivamente. E, em dias de
jogos difíceis, ou quando algo aperta a minha mente, sou capaz de ver seu
Geninho falando: “Só acaba quando termina...”. É uma sensação real de presença.
É justamente como vi num filme certa vez, ou seja, a verdadeira morte é ser
esquecido. O amor é um tipo de memória. A vida acaba, mas as pessoas que amamos
não terminam: elas povoam nossas memórias. Aprendi isso na Faculdade e na vida.
Ah, o nome do jogador é Raudinei. Isso ficou marcado na História como o famoso
gol de Raudnei. Para uns, um gol salvador, uma lição de persistência. Para mim, é tudo isso e muito mais. Mas chega
de laranjada, está na hora de ir pra Fonte Nova: mais um jogo... Vou levar meu
filho para seu primeiro BAVI. É isso, então. Como eu disse antes, a única coisa
preciosa que podemos legar para aqueles que chegam depois são os nossos afetos.
Hoje, penso muito sobre a importância de esses afetos permanecerem vivos na
gente. E que eles possam sempre nos habitar em qualquer momento do jogo, mesmo
aos 42 minutos do segundo tempo. São memórias que podem correr todo o campo, e
nos tocam pelas lembranças de um cheiro, um sabor, um olhar ou apenas um gol.
B.B.M.P!
Vladimir Luz, Niterói (RJ),
08.07, 2023.
sexta-feira, 5 de março de 2021
Dor e glória
Freud dizia que uma das causas da infelicidade humana está na degradação do corpo. O corpo é uma das testemunhas implacáveis do tempo. No corpo, as marcas da finitude se mostram mais visíveis. A velhice, assim, faz-se carne. Mas mesmo a concretude da velhice vem acompanhada de uma “illusio”. O velho, ao se olhar no espelho, sabe que aquele que observa está marcado pela ilusão do tempo, cujo reflexo é somente uma parte de si, ao passo em que a memória teima em ver outro, um estranho-familiar. Afinal, ante a ilusão especular do tempo, surge a pergunta: quem é este velho que me olha?
***
Salvador, personagem autobiográfico de Antonio Banderas em “Dor e Glória”, tem no corpo os sinais do tempo. Dores crônicas, cabelos brancos. Rugas que roubaram o viço e o brilho de antes. A máquina de tendões e músculos não mais obedecia os comandos da mente com precisão. Mas aquele velho corpo que se tornou Salvador também estava impregnado de imagens de si. Um Salvador criança, imagético, habitava também aquela velha carcaça. Salvador percebeu que, na velhice, ficava mais evidente que somos parte de nossas memórias. Antes, na juventude, a instantaneidade da vida e o silêncio das dores do corpo faziam com que as memórias tivessem um valor menos evidente em nossa autoimagem. Mas com o tempo essa imago subjetiva muda. Salvador passou a perceber que parte fundamental de si sempre foi aquele menino que ouvia extasiado sua mãe cantar enquanto lavava roupa no rio; parte de si sempre esteve na memória da casa subterrânea que povoava as imagens de sua infância. O jovem Salvador, de fato, também habitava aquele velho corpo de escritor.
**
Por ocasião de seu aniversário, Caetano Veloso disse em seu Twitter: “Eu tenho muita coisa dos meus 14 anos. E, claro, da minha infância. As coisas mais importantes acontecem quando somos muito jovens”. Talvez seja essa a dinâmica geral das coisas. Vai saber. Não que coisas importantes não possam ocorrer em qualquer momento da vida, mas que esta imago da juventude se forma nos momentos decisivos de estruturação dos nossos lugares no mundo. As marcas da juventude - que em sua imagem especular a cultura antagoniza com a degeneração do corpo velho - passam a ter muita significação na velhice. Nesse sentido, Diana Corso e Mário Corso compreendem que a adolescência - essa recente criação burguesa - seja um momento decisivo na formação de nossa imago. Por isso, sempre seremos, em parte, aqueles jovens desejantes que guardamos na memória, ainda que o espelho insista em negar. Na velhice isso tudo fica muito evidente. A sabedoria da velhice, talvez, passe pela possibilidade de olhar com afeição este outro que sempre fomos nós. A dor da velhice, então, pode ser mais que a dor do corpo em declínio. Pode ser o sofrimento dessa dupla imagem que nos acompanha; a dor não referente à impossibilidade de voltar a ter o corpo jovem, mas, também, a sensação de ter traído aqueles desejos fundamentais; desejos que, com erros e acertos, sempre foram a parte mais autêntica de nós mesmos.
*
O velho Salvador, depois de anos, tinha resolvido encenar mais uma peça sua. Mas sua obra deveria ser assinada por um pseudônimo. Tinha receio de identificar pessoas e fatos, afinal, tratava-se de uma obra confessional.
Talvez aqui tenha se equivocado o velho Salvador. Toda arte é confessional. Mas não no sentido pessoal, imediato. Seria Fernando Pessoa mais Alberto Caeiro ou Ricardo Reis? Ou há mais do Sr. K em mim do que em Kafka ? Na arte podemos nos ver em muitos. Aí está sua estranha magia, que nos acompanha desde as pinturas de Lascaux.
“Dor e glória”, portanto, é um filme confessional. Por isso mesmo ele vai além das memórias da juventude de Antonio Banderas. É um filme sobre esse que olhamos quando estamos diante do espelho do tempo; esse reflexo de memória, desejo e carne que somos nós.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Fragmentos de Es (His) tórias da Assessoria Jurídica Popular na Aldeia Imbuhy
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Gênio Indomável
P.S. Texto feito em 2011... hoje, Sol em Leão, lua em peixes... sem Robin Willams






