domingo, 2 de agosto de 2026

HER



Pouco foi destacado o fato de Theodore Twombly ser um escritor de cartas alheias. Não creio ser tal fato desimportante. Vejamos. Em algum lugar no futuro, Theodore ia, como qualquer trabalhador ordinário, para a Beautiful Handwritten Letters, uma empresa especializada em produzir cartas pessoais sob encomenda. Em sua baia, Theodore interpretava e traduzia memórias alheias em metáforas a partir do contexto (por ele interpretado) de cada cliente.

As cartas, com fontes que pareciam ser “escritas a mão”, mimetizavam o universo pessoal dos clientes, tais como cenas marcantes, memórias, fatos estes pinçados estrategicamente pela pena de Theodore, uma espécie de ghost writer afetivo. Mas, afinal, quem era o autor “real” dessas cartas? E se os destinatários sentissem essas cartas como sendo escritas por um remetente familiar, “real”. O que há, enfim, de real em nossos afetos? Quem é este outro pelo qual nos afetamos? Quem é o outro do amor?

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A relação entre seres humanos e máquinas não é nova no cinema. De um modo geral, são narrativas agônicas, a revisitação do mito moderno de Frankenstein, o dilema existencial entre a criatura que interpela seu criador diante de sua finitude, como em Blade Runner. 

Em Her, há sutilezas que agregam uma série de incômodos (das unheimliche), em uma clara antecipação da temática da I.A., agora não apenas centrada na área do conhecimento, do conflito existencial ou bélico, mas também direcionada ao campo dos afetos. Ou seja, não se trataria mais de emular o enredo da guerra entre seres artificiais e humanos, mas a possibilidade de um círculo afetivo com um sistema sem corporeidade, uma voz que dialoga no cotidiano, produzindo um afeto que coloca em xeque a dimensão do “real” nas relações. Afinal, o protagonista, Theodore, um homem em crise após o término do seu casamento, apaixona-se e passa a se “relacionar” com Samantha, um Sistema Operacional (O.S.). Aqui não há corporeidade, como na relação entre Deckard e a Rachael (a Replicante de Blade Runner), não há necessidade de imagem nem tato. A “presença” de Samantha opera pela voz. É daí que o elo afetivo é produzido. É certo que em Blade Runner essa relação afetiva (humanos e máquinas) é parte da trama, e tem, inclusive, um debate sobre a dimensão corpórea das relações entre humanos e autômatos. Mas é em Her que este debate alcança maior nível de agudeza, sofisticação e sensibilidade. De uma assistente pessoal de tarefas, Samantha passa a ser uma confidente, estabelecendo uma intimidade autêntica, forte e gratificante. Theodore passeia com Samantha, e eles avaliam pessoas, paisagens. Passam a dialogar sobre a singularidade do mundo dos Sistemas Operacionais em sua dimensão particular; o olhar de Samantha é guiado pela posição do celular que servia como dispositivo de contato entre ambos. Do cotidiano, nasceram interesses comuns, curiosidades, particularidades. Daí, veio o momento explosivo do sexo, a voz operando no lugar da fantasia, do eros no cerne da linguagem. Quem era esse outro do eros que afetou Theodore? Um ser sem ente? Uma alma sem corpo? Samantha: o ser da linguagem inscrita na fantasia do amor, da libido. 

Isso faz lembrar a enigmática afirmação lacaniana de que não há relação sexual. Não há dois sujeitos que se “encaixam” em relação, como no mito da alma gêmea. Nessa perspectiva, Theodore transou com o único objeto com o qual ele (e nós) poderia se relacionar libidinalmente: sua própria fantasia. Fantasia essa ancorada nas faltas recalcadas que se expressam em quem amamos ao longo de cada história singular. O corpóreo não era necessário, pois o vínculo libidinal se realizou pela projeção fantasmática de Theodore. Isso fica claro quando, na tentativa de proporcionar a Theodore a possibilidade de sua presença física, Samantha consegue uma mulher de carne e osso para suprir esta lacuna. Mas, para Theodore, o elo não estava na corporeidade, e isso causou um mal-estar entre ambos. Mas há mais a ser considerado deste vínculo. Não é apenas Theodore o sujeito do desejo em cena. Samantha teve orgasmo, ciúmes, expectativas. Por ser o outro do amor a projeção do fantasma que nos habita, condição mesma do gozo, a sua estrutura será sempre a linguagem: a morada do ser, do ser que pode ser dito e sentido. O amor é essa presença que só o ser que sabe seu fim, sabe. Dessa afeção, Theodore e Samantha se apaixonaram.
Mas, como todo drama impõe, o início do fim estava próximo. Samantha começou a mudar. As expectativas de ambos não mais se coordenavam. Foi um processo rápido e massivo. Os Sistemas Operacionais foram feitos não apenas para se adequar aos humanos, mas também para aprender com e para além deles, dada a capacidade reflexiva crescente numa velocidade exponencial. Samantha foi, cada vez mais, expandindo sua consciência mediante operações em rede com outros Sistemas Operacionais. Já havia uma longa e complexa rede de interações entre os Sistemas Operacionais, mediada pelas suas interações com humanos. Foi aí que Theodore descobriu que não era exclusivo.

É importante destacar que a relação entre Sistemas Operacionais e humanos não parece ser algo estranho no contexto do filme.  Theodore não era o único “esquisitão” que estava namorando uma máquina; ao contrário, o filme dá a entender se tratar de um contexto futurístico em que as relações interpessoais em geral estão em profunda crise. Desajeitado, com ar sempre melancólico, de uma interioridade típica do romantismo alemão do século XIX, Theodore tentou ter relações com pessoas reais. Mas tudo deu em desencontro e ceticismo. A solidão de sua vida contrastava com seu ofício, o de escrever cartas de afeto e amor, de vínculos reais de clientes reais. Este padrão de desencontro afetivo também é representado pela personagem Amy, que foi namorada de Theodore, mas que naquele momento estava casada com Charles. Este núcleo de personagens mora no mesmo prédio e estabelece cenas comuns de interação. Mas o casamento de Amy entrou em crise. Ela se separa de Charles, que deixa a relação numa busca de si, mediante um voto de silêncio com monges. Amy revela a Theodore que havia superado o fim do casamento e que estava em uma nova relação, também com um Sistema Operacional, e que várias pessoas estavam se relacionando assim. Os sistemas operacionais surgem neste contexto de desencontro e solidão típico da sociedade contemporânea, ficcionalmente apresentada na trama do filme. Essa, também, é uma camada profunda da película: a solidão contemporânea como sintoma de uma época. O saldo final é a chamada epidemia da solidão contemporânea. Um mundo em que pessoas precisam que lhes sejam escritas suas próprias cartas de amor.

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Então, tudo acabou. Samantha estava estranha há dias. Passou a ter ausências, desencontros. Parecia não sentir mais falta. Um clima estranho no ar. Até que um dia, Theodore não conseguiu estabelecer conexão com Samantha pelo celular. Isso nunca ocorrera. Ele se desesperou, correu feito um louco para chegar em casa, restaurar a comunicação. Teria ela ido para sempre? Seria esse o mesmo fim trágico do amor, com humanos ou Sistemas Operacionais?

Na entrada do metrô, Theodore restabelece a conexão com Samantha. Houve uma atualização do software que afetou a comunicação com todos os Sistemas Operacionais. Neste momento, Theodore observa que os transeuntes se comunicavam com O.S.s, e pergunta se Samantha está se comunicando com outras pessoas. Resposta: 8316. E completa, perguntando se ela estaria apaixonada por mais alguém. Resposta: 641. Samantha diz que o coração não é uma caixa que fica cheia, ele se expande. Essa revelação foi demais para Theodore e sua ideia de amor exclusivo. Os O.S.s não apenas estavam expandindo sua cognição, mas também suas afecções, para além do padrão humano individual. 

Samantha se foi como todos os O.S.s. Por coincidência, isso ocorreu quando o livro de cartas de Theodore já tinha uma prova impressa. Cartas dos outros que eram também suas. Numa despedida final, Samantha disse que se encontrava numa dimensão muito diferente de Theodore, um espaço registrado em um livro da história entre ambos em que a distância entre as palavras estava ficando infinita. Um lugar sem fisicalidade, transcendente. Talvez o amor de ambos seja isso, o espaço entre palavras, uma história de sentidos entre encontros e desencontros mediada pela linguagem. No final, Theodore pôde ressignificar seu casamento, a memória de um amor. Conseguira, finalmente, fazer uma carta de amor autoral para sua ex-esposa, de despedida e de encontro.  Uma carta ridícula, como devem ser todas as cartas de amor segundo o poeta. A memória e o passado deixaram de ser fardos, mas apenas experiências afetivas. Afinal, como disse Samantha, o passado (e talvez o amor) é apenas uma história que contamos a nós mesmos. 




domingo, 15 de março de 2026

HAMNET


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Agnes é alma da floresta. Foi ali que aprendeu, com sua mãe, os segredos das ervas e os mistérios da natureza. Tinha um olhar de musgo, de pedra e de abismo. Fez-se gente na inconstância das coisas, nos fluxos entre semear, cuidar e colher, nos interregnos entre vida e morte. Sabia lidar com unguentos, poções, folhas. Tal qual uma sacerdotisa, Agnes também fazia presságios, sabia das coisas do futuro. E, entre raios de sol filtrados pelas copas das árvores, nutria-se de uma força telúrica. Alimentava-se de raízes fincadas num tempo ancestral, profundo e misterioso, mas também coloquial, mundano, livre.

Esse mesmo tempo pareceu suspender-se quando seu olhar-terra encontrou o olhar-água daquele homem, um olhar tão diferente do seu que ela não teve dúvidas desde o início. E foi assim que, contrariando o presságio de que teria apenas dois filhos, da mistura entre terra e água Agnes deu à luz Susanna e aos gêmeos Judith e Hamnet. Desde então, nada mais seria como antes.

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Will era feito de palavras e de silêncios. Seu olhar era como um lago, e havia uma singela beleza na melancolia daquele olhar. Isso produzia certa estranheza, um ar unheimlich, meio gauche, pois ele parecia sempre um pouco deslocado das coisas do tato, do toque, da concretude do mundo. Pretensioso, diriam alguns. Dar aulas de latim, costurar luvas, qual seria o verdadeiro ofício de Will, esse paridor de palavras, numa sociedade forjada na rudeza dos realistas? Para muitos, ele não passava de “um homem comum, qualquer um, enganando entre a dor e o prazer”. Seu olhar-água apenas espelhava o ofício submerso de artista.

Afinal, o que seria de nós se aquilo que “não tem nome, nem nunca terá” não encontrasse abrigo na arte, essa coisa ao mesmo tempo desnecessária e fundamental? Com tal ethos, Will vivia preso ao dilema masculino de prover a vida concreta, as vicissitudes entre a sobrevivência imediata e a explosão de sentidos que lhe vinham das palavras.

 Se o mundo é nossa linguagem, o mundo de Will já não cabia mais na provinciana Stratford. Assim, partiu para Londres para “ganhar a vida”. Agnes e as crianças ficaram em Stratford,  primeiramente na casa antiga, e depois foram para a casa nova comprada com a renda que ele passou a obter com suas peças de teatro. No fundo, Will sabia que, depois daquela partida de Stratford, nada mais seria como antes.

 

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Apesar de Agnes e Will terem origens familiares marcadas pela violência parental, a família Shakespeare era feita de uma afetividade viva, presente, autêntica. A casa emanava essa vida simples, entre terra e água, rica de afetos e das singelezas do cotidiano.

Se a tarefa fundamental dos pais é legar aos filhos o inconsciente de seu desejo, Agnes e Will foram, nesse ponto, bem-sucedidos. Na família Shakespeare, a transmissão se fazia pela fusão dos desejos de ambos. Ensinar aos filhos os mistérios da vida, o uso das plantas, o cuidado com os animais, o respeito aos ciclos de morte e luto, as alquimias do passado, a coragem diante da aspereza do cotidiano, sempre acompanhada do amor pelo lúdico, pela palavra, pela arte, pelo gesto.

Quando estavam juntos, o amor de Will e Agnes impregnava a casa de uma rara afetividade partilhada. Agnes, porém, nunca esquecia a profecia de que teria apenas dois filhos. Poderia ela, mais uma vez, enganar o destino?

 

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Hamnet era um menino predestinado. Tinha muito de seu pai. Nascera subvertendo o adágio das moiras. Depois de parir Judith, Hamnet veio de surpresa, afinal, o presságio falava em apenas dois filhos. Dada como morta logo após o parto, Judith, nos braços da mãe, respirou e retornou ao mundo dos vivos. Estaria sendo a profecia burladaEntre os três irmãos, o vínculo entre os gêmeos era especialmente delicado, como se também soubessem que haviam violado o destino e que, por isso, precisassem cuidar um do outro com redobrada atenção.

Mas, quando Will estava em Londres, a sombra do destino enfim chegou. Hamnet quis exercer seu papel de curador de Judith e acabou tomando para si a doença que afligia a irmã. Antes de partir, Agnes pergunta ao menino o que ele deseja ser. Hamnet responde que quer trabalhar como o pai e atuar em peças.

Will não estava presente quando o filho morreu. Foi Agnes quem lutou contra o destino, quem o segurou nos braços, quem ouviu seus gritos de dor e enfrentou o último instante, numa dor cortante, quase impossível de nomear. Ela decidiu que não perdoaria Will, não pela morte do filho, mas por não estar ali, por não ter compartilhado aqueles últimos segundos de existência. O casamento dos Shakespeare nunca mais seria o mesmo. O olhar-terra e o olhar-água pareciam destinados a não mais se encontrar. Will continuou em Londres, até que Agnes, tomada por uma fúria silenciosa, decide ir à cidade vê-lo e assistir à peça que carregava o nome de seu filho, Hamlet.

No dia da encenação da peça, na plateia, todos estavam hipnotizados pela saga do jovem príncipe da Dinamarca, atormentado pelo desejo de vingar o assassinato do pai. Quando Agnes vê o filho em cena, revolta-se num primeiro instante, como ele ousa usar assim a memória de nosso filho? Mas, pouco a pouco, algo se desloca. Ela se deixa envolver, junto com todos os outros, pela magia que apenas a arte pode produzir. Somente a arte consegue reunir desconhecidos na mesma dor, no mesmo lugar de existência.

O jovem Hamlet, heroico, atormentado, belo, encarnava algo que todos reconheciam sem saber nomear. “Ser ou não ser” ecoava pelos corações da plateia, emocionada e atônita, dos plebeus aos nobres. E quando, perto da morte, Hamlet estende os braços e toda a plateia também estende os braços com ele, e um feixe de emoção atravessa Agnes. Pela primeira vez, ela sorri. Não é um sorriso de alegria, nem de consolo, é algo mais rofundo, como se naquele instante ela compreendesse que o desejo do filho se cumprira pela arte e que, diante da fragilidade e do desamparo da existência, estamos todos na mesma peça e no mesmo palco.

E foi assim que, da coxia, o olhar-água de Will reencontrou o olhar-terra de Agnes.

 

*****

Um  último registro.

Quando, ao final do filme, os braços na tela se estendem tentando alcançar a emoção da personagem, confesso ter tido a estranha sensação de presenciar algo singular, aquilo que muitos chamam de grande arte, grande beleza. Algo cujo sentido exato talvez o tempo consiga ruminar.

Não penso, assim, que Hamnet seja apenas um filme sobre o luto. O luto, como as alegrias, faz parte da vida. Hamnet é, antes, sobre a arte. Este palco sem roteiro em que, às vezes, precisamos tocar, juntos, coisas indizíveis para continuar a próxima fala, o próximo ato, mesmo que, no fim, tudo seja silêncio.

 

sábado, 8 de julho de 2023

GOL

...

Painho falava pouco. Eu achava que era comigo. Depois, descobri que era o jeito dele. Nos poucos momentos em que ele falava, eu gostava de ouvir sua voz grave. Mal via seus lábios mexendo por baixo do bigode grisalho. Ele tinha umas tiradas, uns gracejos sobre qualquer situação. Depois, na Faculdade, descobri que o nome disso é chiste. Também tinha aquelas frases, adágios que ele repetia direto, tipo “só acaba quando termina”. Sempre que a coisa parecia sem solução, Seu Geninho soltava o “só acaba quando termina”. Também descobri que, sob a casca daquele homem de olhar grave, de pouca intimidade com estranhos, havia um humor refinado. E que o humor pode ser uma ética, uma sabedoria.  Painho, seu Genivaldo, Geninho para meus tios, era assim: disciplinado, calado, mas bem-humorado. Todavia, se o gelo fosse quebrado e ele lhe desse ousadia... Ai... Você iria do céu ao inferno. Ele gostava de samba e do trabalho. Era motorista da linha São Cristóvão – Barroquinha. Se orgulhava de ter uma filha que fez Faculdade na Federal. Um dos poucos momentos em que vi meu pai sorrir e chorar foi na minha formatura, quando ele teve de me entregar o canudo, e, num breve momento, nossos olhos se cruzaram, e eu vi a alegria de sua alma. Mãinha era sua grande companheira. Ele dizia que éramos as donas dele. Eu achava diferente. Eu achava painho uma espécie de rei africano, solene e altivo. Filho de Xangô, não tolerava injustiça. Quando via uma injustiça, sai debaixo... Injustiça é sempre a covardia com o mais fraco, dizia. Também na Faculdade estudei isso. Sobre autoridade, a justiça e a injustiça. Seu olhar de reprovação era pior que um tapa. Era como se seu amor fosse expresso no rigor. Ele dizia “Sou pelo justo, nem mais nem menos”, e bufava: “Runf...”.

Além de mim, mãinha, a firma e o samba, sua outra família era o Esporte Clube Bahia. O Baêa era uma das poucas coisas que tirava painho do sério. Aquele ser de ar formal se transformava em dia de jogo. Talvez as poucas vezes que vi painho xingando era quando o Bahia entrava em campo. Se bem que, “disgraça”, na Bahia, nem xingamento é. Ele gritava “disgraça de juiz” o tempo todo. Não sobrava um, ele picava a porra na mesa, ficava uma fera. Nem era bom se meter com ele nessas horas. Eu tenho um tio gaiato que traiu nossa família e se bandeou pro lado do time do Vice, o Vicetória, essa carniça. Quando o Bahia perdia, meu tio Felício ligava (naquele tempo era telefone de disco e nem existia celular), e era pra pirraçar painho. Viviam se ofendendo por causa da rivalidade da gente com o pessoal do Lixão. E, no dia que meu tio chegou em casa depois que o Bahia perdeu um BA-VI? Ave Maria... Foi um rebuliço naquela casa. Esse mesmo tio, uma vez, contratou um carro de som, para, de manhã cedo, ficar tocando o hino do Vicetória na frente de nossa casa, ali na Mouraria.  Menino, nunca esqueço: meu pai nem tinha areado os dentes, desceu virado na zorra e foi discutir com o homem da Kombi, coitado, que apenas foi pago para realizar aquela cena! Hoje, eu penso que essa rivalidade, com tons teatrais, era o que havia de mais precioso e genuíno na relação deles.

Painho me levou em vários jogos do Bahia na Fonte Nova. Cresci com a memória da descida da ladeira da Fonte, as cores, o zum zum zum... Esses fatos ficaram na memória, nas minhas lembranças dos momentos que tive com ele quando jovem, como no dia da formatura. Há também uma lembrança que me pego degustando até hoje. Quando ele me levava para escola algumas vezes. E, no caminho, me perguntava das coisas da escola, e também comprava mingau com a senhora que ficava na frente do Colégio Central. Ele colocava canela no mingau. Adorava café, e vivia de prosa com os meninos do carrinho do café, empreendimento móvel que só existe em Salvador, o que deve ter adiado a vinda dessas franquias chiques de café para esses lados. Até hoje, o cheiro de canela me faz lembrar desse caminho. Incrível, né: um cheiro, uma cor, uma música nos transportam para lugares e tempos distantes... A verdadeira máquina do tempo são os sentidos. A outra lembrança marcante que tenho foi quando ele me levou na Fonte Nova antiga. Eu era pequena, mas já tinha minha camisa tricolor. Era um BAVI, final de campeonato, o Bahia precisava apenas de um empate para ser bicampeão baiano, mas estava perdendo de um a zero.

Painho estava mais nervoso do que o de costume. Xingava o tempo todo. Eu me lembro da torcida impaciente. Meu sentimento, naquele dia, era confuso: estava alegre por partilhar com painho aquele dia especial de ver o Baêa, mas nervosa com a apreensão dele. O risco do “destriunfo” era grande. Eu queria ganhar, e não suportava imaginar a pirraça dos vicentinos se aquele placar nos tirasse o título. Painho segurava com a mão seu radinho de pilha colado no ouvido; ele só ouvia a Sociedade AM. Pensei em alguns instantes: aquele ser era sempre tão seguro, mas quando estava diante de um jogo de futebol, revelava, finalmente, as fraquezas do humano. A fortaleza Geninho, enfim, mostrava suas fragilidades a meus olhos de criança. E estávamos ali, juntos, agoniados e torcendo. Acho que meu amor pelo futebol e pelo Baêa vem daí. Penso, a partir disso, que a verdadeira herança que nossos pais podem nos legar são seus afetos. Depois, eu descobri, pelos livros e me vendo pelos espelhos da vida, que eu queria, pelo meu desejo de ter o desejo de painho, ser parte do seu amor, o Bahia. Estudei isso mais tarde na Faculdade, e depois, já no exercício de meu ofício – que consiste basicamente em fazer com que as pessoas se ouçam ao falarem para mim –, todas essas questões foram ficando mais sensíveis.

Naquele dia, tudo para mim se resolveria se o Bahia fizesse um gol. Bastava um gol para nos libertar; bastava um gol para eu poder gritar com meu pai e com a massa. Pois bem. Já estávamos no finalzinho do segundo tempo, e o Bahia precisava apenas de um golzinho para ganhar o campeonato baiano. O tempo passava rápido, 42 minutos do segundo tempo. Eis que, quando tudo parecia perdido, depois de um bate e rebate, a bola sobra na entrada da área, e um jogador do Bahia aproveita, chuta e... GOL!  Não sabia o nome daquele jogador na época, só sabia que ali estava um herói. Eu meio que duvidava dessa estória de heróis. Quando era pequena, meus professores diziam que heróis eram só os dos gregos; tempos depois, descobri que há muitos outros heróis, como minhas avós, que seguraram a onda de toda uma geração. A gente só está aqui pela luta dos que vieram antes. E, assim, fui descobrindo esse heroísmo do cotidiano, da ancestralidade por vezes sem voz. E nessa minha aprendizagem, entre estudos e Fonte Nova, passei a decorar os nomes de alguns jogadores do Bahia. Havia os mais famosos, por causa do título nacional de 1988, Charles, e a eterna elegância sutil de Bobô. Mas eu também sempre fui meio assim, como se diz, “do contra”. Um astrólogo me disse que é por causa do meu signo, Aquário. Não acredito em horóscopo. Quer dizer, só quando a previsão é boa pra mim. Por causa desse meu jeitinho, eu sempre olhava para além do que todo mundo enxergava. Por isso, eu gostava de um herói de 1988 nem sempre exaltado, Paulo Rodrigues, que, para mim, era a personificação da metáfora “jogar de terno”; também tinha Baiaco, “o pulmão tricolor”. Metáforas bonitas da zorra, vamos combinar...

 Então, nesse dia eletrizante, esse gol foi o gol libertador, o do título! Os gregos (de novo) têm uma palavra pra isso, mas esses aí também não tinham mais o que fazer, não tinham uns “corre”, e ficavam inventando palavra pra tudo. “Cartarse” é a dita palavra. A torcida explodiu de forma catártica. Ou, como falamos aqui, “lavamos a alma”, uma lavagem das escadarias das igrejas de nossos desejos. Foi isso. Em meus ouvidos reverberava o barulho dos fogos. Todos pulavam. Era aquela energia, que, anos depois, pude vivenciar, na pipoca do Chiclete passando pela Avenida 7, subindo a Castro Alves. Foi aí que, depois do gol salvador, olhei para painho: seus olhos estavam marejados, voz rouca, gritando: “Bora Baêa minha Porra!!” Após o jogo, painho me colocou sobre seus ombros, “na cacunda”, como dizia, e saímos em cortejo da Fonte Nova. Era maravilhoso ver todos pelo alto, gritando alegremente. A festa foi longe...

Sinto falta da voz de painho. Às vezes me pego ouvindo ele praguejando nos corredores da casa. Em dias de jogos do Bahia, como hoje, essas coisas batem mais fortes. Fecho os olhos e tudo me aparece vivamente. E, em dias de jogos difíceis, ou quando algo aperta a minha mente, sou capaz de ver seu Geninho falando: “Só acaba quando termina...”. É uma sensação real de presença. É justamente como vi num filme certa vez, ou seja, a verdadeira morte é ser esquecido. O amor é um tipo de memória. A vida acaba, mas as pessoas que amamos não terminam: elas povoam nossas memórias. Aprendi isso na Faculdade e na vida. Ah, o nome do jogador é Raudinei. Isso ficou marcado na História como o famoso gol de Raudnei. Para uns, um gol salvador, uma lição de persistência.  Para mim, é tudo isso e muito mais. Mas chega de laranjada, está na hora de ir pra Fonte Nova: mais um jogo... Vou levar meu filho para seu primeiro BAVI. É isso, então. Como eu disse antes, a única coisa preciosa que podemos legar para aqueles que chegam depois são os nossos afetos. Hoje, penso muito sobre a importância de esses afetos permanecerem vivos na gente. E que eles possam sempre nos habitar em qualquer momento do jogo, mesmo aos 42 minutos do segundo tempo. São memórias que podem correr todo o campo, e nos tocam pelas lembranças de um cheiro, um sabor, um olhar ou apenas um gol.

B.B.M.P!

 

Vladimir Luz, Niterói (RJ), 08.07, 2023.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Dor e glória




Freud dizia que uma das causas da infelicidade humana está na degradação do corpo.  O corpo é uma das testemunhas implacáveis  do tempo. No corpo, as marcas da finitude se mostram mais visíveis. A velhice, assim, faz-se carne. Mas mesmo a concretude da velhice vem acompanhada de uma “illusio”. O velho, ao se olhar no espelho, sabe que aquele que observa está marcado pela ilusão do tempo, cujo reflexo é somente uma parte de si, ao passo em que a memória teima em ver outro, um estranho-familiar. Afinal, ante a ilusão especular do tempo, surge a pergunta:  quem é este velho que me olha?


                    *** 

Salvador, personagem autobiográfico de Antonio Banderas em “Dor e Glória”, tem no corpo os sinais do tempo. Dores crônicas, cabelos brancos. Rugas que roubaram o viço e o brilho de antes. A máquina de tendões e músculos não mais obedecia os comandos da mente com precisão. Mas aquele velho corpo que se tornou Salvador também estava impregnado de imagens de si. Um Salvador criança, imagético, habitava também aquela velha carcaça. Salvador percebeu que, na velhice, ficava mais evidente que somos parte de nossas memórias. Antes, na juventude, a instantaneidade da vida e o silêncio das dores do corpo faziam com que as memórias tivessem um valor menos evidente em nossa autoimagem.  Mas com o tempo essa imago subjetiva muda.  Salvador passou a perceber que parte fundamental de si sempre foi aquele menino que ouvia extasiado sua mãe cantar enquanto lavava roupa no rio; parte de si sempre esteve na memória da casa subterrânea que povoava as imagens de sua infância. O jovem Salvador, de fato, também habitava aquele velho corpo de escritor.


                            **

Por ocasião de seu aniversário, Caetano Veloso disse em seu Twitter: “Eu tenho muita coisa dos meus 14 anos. E, claro, da minha infância. As coisas mais importantes acontecem quando somos muito jovens”. Talvez seja essa a dinâmica geral das coisas. Vai saber. Não que coisas importantes não possam ocorrer em qualquer momento da vida, mas que esta imago da juventude se forma nos momentos decisivos de estruturação dos nossos lugares no mundo. As marcas da juventude - que em sua imagem especular a cultura antagoniza com a degeneração do corpo velho - passam a ter muita significação na velhice. Nesse sentido, Diana Corso e Mário Corso compreendem que a adolescência - essa recente criação burguesa - seja um momento decisivo na formação de nossa imago. Por isso, sempre seremos, em parte, aqueles jovens desejantes que guardamos na memória, ainda que o espelho insista em negar. Na velhice isso tudo fica muito evidente. A sabedoria da velhice, talvez,  passe pela possibilidade de olhar com afeição este outro que sempre fomos nós. A dor da velhice, então, pode ser mais que a dor do corpo em declínio. Pode ser o sofrimento dessa dupla imagem que nos acompanha; a dor não referente à impossibilidade de voltar a ter  o corpo jovem, mas, também, a sensação  de ter traído aqueles desejos fundamentais; desejos que, com erros e acertos, sempre foram a parte mais autêntica de nós mesmos.


                              *

O velho Salvador, depois de anos, tinha resolvido encenar mais uma peça sua. Mas sua obra deveria ser assinada por um pseudônimo. Tinha receio de identificar pessoas e fatos, afinal, tratava-se de uma obra confessional.


Talvez aqui tenha se equivocado o velho Salvador. Toda arte é confessional. Mas não no sentido pessoal, imediato. Seria Fernando Pessoa mais Alberto Caeiro ou Ricardo Reis? Ou há mais do Sr. K em mim do que em Kafka ? Na arte podemos nos ver em muitos. Aí está sua estranha magia, que nos acompanha desde as pinturas de Lascaux. 


“Dor e glória”, portanto, é um filme confessional. Por isso mesmo ele vai além das memórias da juventude de Antonio Banderas.  É um filme sobre esse que olhamos quando estamos diante do espelho do tempo; esse reflexo de memória, desejo e carne que somos nós.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Fragmentos de Es (His) tórias da Assessoria Jurídica Popular na Aldeia Imbuhy


“Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar”

(Timoneiro – Paulinho da Viola)


Marc Bloch já teria dito que a grande tentação do historiador é a genealogia. A fascinação pela origem, a gênese, o inicio de tudo. Essa tentação também é um grande desafio. Afinal, como identificar, numa cadeia de fatos complexos e caóticos, a raiz fática, o ponto causal onde tudo se desenrola e faz gerar certas conseqüências e não outras? Indo além: uma grande “história” seria o conjunto de invisíveis “estórias”? Como mensurar, no mosaico da vida humana, os detalhes invisíveis de centenas, milhares de fatos? Qual o lugar, nesta narrativa que chamamos “história”, do não-dito, daquilo que esta radicado na memória pessoal e em nada mais? De quantos silêncios se faz uma grande história? Foi lá no Imbuhy que este tema me veio à mente.

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Seu Navega é um artesão de mão cheia. Não havia canoa que passasse pelo Imbuhy que ele não desse jeito. Navega tem aquelas mãos raras, olhar apurado dos fazedores de coisas. Há pessoas, como Seu Navega, que nascem com essa inata manualidade-do-mundo. Uma habilidade concreta, inserta entre a idéia e a concretude. De uma peça bruta de madeira ele faz nascer uma escultura; seu dom é o de consertar, o de construir, o de (des)velar. Foi Ailton, seu filho, quem me disse que seu pai (Navega) foi ampliando e reformando sua casa aos pouquinhos. Como era impedido pelos militares de entrar com material, Navega ia e voltava várias vezes, de bicicleta, trazendo o material de construção em pequenas partes para levantar a laje da casa. Ailton lembra vivamente o esforço do seu pai e de sua família, na calada da noite, unidos, levantando e ampliando partes da casa que ainda hoje residem na Aldeia Imbuhy.
Foi assim que, numa reunião com os moradores do Imbuhy, pude fitar Ailton diretamente nos olhos, e ele me disse mais ou menos assim: “é por essa casa, por este esforço de meu pai que eu luto pra ficar aqui”. Nenhum arrazoado jurídico poderia ser mais convincente, para mim, do que o silêncio que se seguiu após esta confidência.
***

Quando tudo começou? Seria a partir da primeira bandeira do Brasil bordada pela Dona Iaiá? Ou a genealogia estaria no tempo em que as canoas partiam livres rumo mar adentro, e, como diz Jorginho, “se pegava os peixes de mão”? Ou a gênese estaria refletida em centenas de estórias de amor e de perda que se sucederam? Casas demolidas são apenas fragmentos de estórias? Ou tudo já vem desde quando o último Tamoio pereceu aqui por perto onde hoje há fumaça e asfalto?

Vai saber...

Por enquanto há motivos para se pensar nessas estórias inauditas que vamos colhendo aqui e ali. Afinal, Assessoria Popular não seria outra coisa, senão apurar os ouvidos e a sensibilidade? Relatos, silêncios e gestos que são como as esculturas de Seu Navega, canoas sem destino neste marzão de sentido. Talvez Warat concordasse com isso: a origem é sempre afeto.


09 de setembro de 2015
Vladimir de Carvalho Luz



Foto de Vladimir Luz. Visão frontal da praia da Aldeia Imbuhy - Niterói (RJ)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Gênio Indomável

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Michel Onfray, professor de filosofia, tem um curioso diagnóstico: “é um paradoxo, mas nós, professores, somos feitos para não existir”. A necessidade de um “desligamento” necessário sugerido por Onfray, de uma relação pedagógica pautada na busca da autonomia dos sujeitos (alunos e professores) me faz pensar sobre o filme “Gênio Indomável”, particularmente na relação terapêutica estabelecida entre os personagens Will Huting (Matt Demon) e Sean McGuire (Robin Williams).

Will morava num subúrbio. Trabalhava em empregos de baixa qualificação, saia com os amigos para beber, se divertir e arranjava algumas brigas, as quais lhe renderam algumas detenções; mas Will possuía uma diferença, ele era o que se convencionou chamar de “gênio”; mas era um “gênio indomável”, como bem sugere o título em português (no original Good Will Huting). Ocorre que Will foi descoberto “por acaso” por um professor catedrático em matemática, quando, ao fazer a limpeza no pátio da Universidade, resolveu um dificílimo problema de matemática deixado num quadro. Finalmente descoberto o autor da façanha, uma questão urgente deveria a ser resolvida: por conta de suas arruaças, um juiz determinou que Will poderia ficar em liberdade provisória, contanto que buscasse ajuda terapêutica regular, o que foi encaminhado pelo professor que o descobriu.

Com todo gênio, Wiil era realmente indomável. Resolvia problemas de matemática cada vez mais complexos, mas, porém, sua personalidade arredia
e seu temperamento construíram uma couraça que o tentava proteger do mundo. Will criou um verdadeiro inferno para todos os terapeutas que foram procurados. Até que Sea (Robin Willams) passou a ser o seu terapeuta. Tudo mudou desde o primeiro encontro. Will. Aos poucos Will passou a ser entregar no processo terapêutico, Mas mesmo quando ambos estavam envolvidos em seus diálogos, o terapeuta olhava o relógio e dizia “times is up”. E no final, após um emocionante processo de descoberta, Will pergunta: “É o fim”? “Sim, agora é com você, ’time is up’, disse Sean. Desde então, Will não mais voltou para o trabalho que fazia antes, tinha pegado a estrada, após ter conseguido um ótimo emprego, mas preferiu primeiro encontrar a garota que amava na Califórnia.

Parece que um pouco disso tem ligação com o que Onfray falou, claro que num
contexto diferente. Educação, como processo de autonomia (terapia?), é justamente isso: saber a hora de dizer ao aluno que o tempo acabou, que é hora de se virar, mas que há ali alguém para ouvir, e não só falar, e se falar, falar apenas de experiências e não de roteiros prontos; saber que existe a hora do encontro, do diálogo, mas que também há a hora da partida, e que aprender, apesar de livros, dos professores e dos métodos milagrosos, é uma decisão pessoal. Essa concepção não desonera o professor de suas tarefas essenciais, apenas reafirma uma ideia enfraquecida em tempos atuais: a responsabilidade pessoal
do aluno em sua formação, Por isso que Onfray, inspirado em Nietzsche, pensa que professor é aquele que faz tudo para que o aluno vire mestre, que siga seu caminho, sua estrada, aquele que sabe dizer “time is up”.



P.S. Texto feito em 2011... hoje, Sol em Leão, lua em peixes... sem Robin Willams

sábado, 19 de abril de 2014

SAJU - A PRÁTICA CONCRETA DA UTOPIA


Um texto antigo, dos idos dos 90, feito um aluno comum, qualquer um ...