quarta-feira, 26 de agosto de 2026

MEU MAPA





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Tenho Sol no Porto da Barra

Na quebrada do Hospital Espanhol, aquela luz que só sabe quem tem olhos pra ver, luz no sobrenome


Minha Luano Rio Vermelho, Mercado do Peixe, conversa que vai longe até de manhãzinha


No Horizonte a Gamboa, Contorno, Baia de todos os Santos, ascendente dos meus ancestrais que aqui chegaram sob ferros e fé


Meu Marte fincou pé no Convento da Lapa, 2 de Julho, junto com Quitérias e Joanas fazendo frente


Na casa 12 tenho meus desafios, a casa oculta, os cárceres, os que dormem nas marquises da Barroquinha, invisíveis aos condomínios, sob os mistérios de Plutão e seus segredos, segredo que só o Ifá revela. Freud e Fatumbi na escuta


Na 5 tem as terças da Benção, cravinho, Rauls e Seixas, Baco descendo o Taboão até o Pelourinho


Saturno olha de longe como quem viu de tudo nesse mundo que se possa saber, senhor do tempo, preto velho, tava lá desde o inicio


Mercúrio é o dono da roda, Sete Portas, Comércio, faz a ponte entre os mundos, Plano Inclinado, Hermes e Exu, vem alado gritando "Capelinha, Capelinha", ele desbanca cheiro mole e não tem missão impossivel. Mas numa quadratura com vênus, tem sofrência e poesia, e tem horas que ele clama: na moral, não apertem minha mente!


Júpiter, entre trígonos e conjunções, turbina tudo com sua fome de sorte, areia de abaeté que tudo cobre de branco, e com caldos de sururu pra aumentá as força


Orion estava com seu arco preparado perto do meio do céu, Oxossi na espreita, Plêiades, Três Marias que alumiam as noites de São João


Urano fez gol na Fonte Nova, de repente, na prorrogação, passe sutil de Bobô, BBMP, golzinho no meio da rua, bába de pé descalço na hora do recreio, é que só rala o joelho quem se arrisca


Meu mapa é meu silêncio, não destino.


É a lembrança da voz de minha vó dizendo: vem tomar café, menino


E minha voz soteropolitana dizendo: tô inno, vó


Tô inno


V.L 03.03.2018



terça-feira, 4 de agosto de 2026

CARTAS E PROVAS


Prezadas e prezados,

Cartas significam muito para mim. Não por um ato de vontade nem por ideologia. Percebi isso recentemente, quando um aluno me perguntou por que minhas avaliações eram sempre no formato de carta — pergunta que, aliás, já virou tradição na primeira aula. Fiquei sabendo que os veteranos tocam o terror, anunciando aos calouros que eles terão disciplina com o “professor das cartas”. Sempre respondi com uma justificativa racional, fundamentada em sólidas teorias sobre avaliação de habilidades e competências. Mas há mais. Revolvendo a memória, percebi que tive dois encontros marcantes com as Cartas: um no início da Faculdade de Direito e outro ao me formar.

O vestibular para Direito era concorrido. Naquele tempo (no ocaso da dinastia Aquemênida), havia apenas a Faculdade de Direito da UFBA e a da Católica em toda Salvador. Ou seja, ser “estudante de Direito” tinha certo prestígio: futuro bacharel, anel de doutor, aquela coisa. Marcador claro de distinção social. Para entrar no Olimpo havia a maratona insana do vestibular, instrumento condicionado por múltiplos fatores de diferenciação social e privilégio. Mas eu tinha uma relação afetiva com o saber, que foi decisiva nessa disputa. Para minha família, a ideia de mobilidade pelo estudo era central — e isso veio das duas matriarcas, Vó Conceição e Vó Izabel: uma empregada doméstica, outra lavadeira, ambas analfabetas. Minha vó Izabel aprendeu a ler, já idosa, só para ler a Bíblia.

Foram elas que perceberam que a mobilidade geracional só seria possível pelo estudo, não como dádiva, mas como brecha. Como foi segurar a barra, sendo mulheres vulnerabilizadas em tantos níveis e criando os filhos sozinhas? Mais que estratégia, havia ali também uma ética do saber. Nenhum saber era ruim. Conhecer empodera não só na vida concreta, mas no mundo interior. Fortalece diante do mistério; é saber que se sabe vivendo junto. O saber que elas tinham de olhar as plantas e as pessoas, aquela fé que sempre estranhei, mas que sustentou tudo. Estudar era um ethos, e dali veio essa pulsão do saber que herdamos. Somos uma família de professores. É desse lugar do saber, em que se deseja junto, um amparando o outro (e brigando), que veio meu diploma de “dotô”. Todo saber me encanta, e ser baiano me fez sincrético ab ovo (um topos importante).

Voltando: diante do desafio do vestibular, no dia fatídico da redação, a UFBA inovou. Não pediu uma dissertação, como era regra, mas uma Carta, modelo que já havia sido usado pela Unicamp. E mais: não era qualquer carta, era “faça uma carta de amor”. Quando li o enunciado, meu Marte em Aquário e minha Vênus em Libra falaram ao meu ouvido: agora é sua hora. (E sim, astrologia tem mais evidência que pós-estruturalistas franceses tidos como gênios. E sim, o conteúdo deste parêntese pode determinar o prosseguimento de sua leitura e mesmo de nossa eventual amizade.) E foi assim que entrei na centenária e egrégia Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.

O segundo encontro com as cartas veio no final do curso. Eu já estava formado; faltava apenas a colação de grau. Discursos e juramentos. Nessa época, no SAJU, havíamos atendido uma comunidade do Tororó em uma ação de reintegração de posse. Na semana do Natal, revertemos a ordem judicial. Eu seria o orador da turma. Perto de proferir o meu discurso (Turma Gregório de Matos Guerra, 1993.2 a.C.), Isaac Reis, amigo que formou comigo, apareceu com um envelope verde-amarelo e me disse: "véi, não leia agora, não". Talvez desconfiasse do conteúdo. Lembro que várias famílias atendidas pelo SAJU foram à formatura. Foi lindo.

Após a cerimônia, abri a carta. Era de uma líder comunitária do Tororó que havia procurado o SAJU e lutado conosco. Ela pedia desculpas por não poder comparecer, contava sua vida, suas venturas e desventuras e me chamava de “dotô Vladimir”. Era como se eu estivesse com ela: uma conexão que não era só com a liderança, mas com a pessoa que se abre ao diálogo como registro, como partilha. Outro dia, arrumando papéis antigos, encontrei essa carta e a reli. Considero que essa carta foi o segundo Diploma que a UFBA me concedeu pelos encontros e desafios humanos que me proporcionou.

Vejam, portanto, que minha relação com Cartas é antiga. E mantive essa tradição ao longo da vida. Quando o professor Carlos pediu uma forma de avaliação sobre os temas das aulas que tivemos (Viehweg, Warat e Sloterdijk), não titubeei: tinha que ser em forma de Carta. Até porque a turma compreendeu, na prática, o sentido dionisíaco da aula. Baco subiu o Valonguinho e foi prosear com Warat, enquanto Lênin, com sono, insistia em dizer o que fazer, afinal, todo Vladimir tem fama, injusta, de mandão.

Diante disso tudo, retórica e afetivamente apresentado, a melhor forma de avaliar, com Warat, é pelo diálogo em primeira pessoa. Façam uma carta-resposta a esta. Digam-me: como as questões da tópica, da retórica, do senso comum teórico e do cinismo reverberaram em vocês e em suas pesquisas? A Carta não invalida o aprendizado da linguagem acadêmica “séria”, ela apenas serve como exercício de escrita e de memória. Não esqueçam que grande parte da teoria europeia do Direito, e mesmo a psicanálise, foi produzida por diálogos mediados por cartas. Kelsen e Freud foram grandes missivistas. E de muitas dessas conversas nasceram teorias que hoje lemos em livros.

Aliás, como disse Sloterdijk, citando outros, livros nada mais são que cartas, um pouco mais extensas, endereçadas a destinatários anônimos que, mesmo distantes, aceitam estabelecer um diálogo que atravessa séculos: às vezes como Humanitas, outras vezes como tragédia (esta última parte dramática é por influência da minha Casa 10 em Câncer). Em suma: é cilada, Kelsen, sempre foi, e não ato de vontade.

Aguardo as respostas.

Vladimir de Carvalho Luz

Do Largo da Batalha em 12 de dezembro de 2025.


* Instrumento de avaliação dos temas que lecionei na Disciplina do PPJA da UFF em 2025.

domingo, 2 de agosto de 2026

HER



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Pouco foi destacado o fato de Theodore Twombly ser um escritor de cartas alheias. Não creio ser tal fato desimportante. Vejamos. Em algum lugar no futuro, Theodore ia, como qualquer trabalhador ordinário, para a Beautiful Handwritten Letters, uma empresa especializada em produzir cartas pessoais sob encomenda. Em sua baia, Theodore traduzia memórias alheias em metáforas a partir do contexto (por ele interpretado) de cada cliente.

As cartas, com fontes que pareciam ser “escritas a mão”, mimetizavam o universo pessoal dos clientes, tais como cenas marcantes, memórias, fatos estes pinçados estrategicamente pela pena de Theodore, uma espécie de ghost writer afetivo. Mas, afinal, quem era o autor “real” dessas cartas? E se os destinatários sentissem essas cartas como sendo escritas por um remetente familiar, “real”. O que há, enfim, de real em nossos afetos? Quem é este outro pelo qual nos afetamos? Quem é o outro do amor?

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A relação entre seres humanos e máquinas não é nova no cinema. De um modo geral, são narrativas agônicas, a revisitação do mito moderno de Frankenstein, o dilema existencial entre a criatura que interpela seu criador diante de sua finitude, como em Blade Runner. 

Em Her (2013), há sutilezas que agregam uma série de incômodos (das unheimliche), em uma clara antecipação da temática da I.A., agora não apenas centrada na área do conhecimento, do conflito existencial ou bélico, mas também direcionada ao campo dos afetos. Ou seja, não se trataria mais de emular o enredo da guerra entre seres artificiais e humanos, mas a possibilidade de um círculo afetivo com um sistema sem corporeidade, uma voz que dialoga no cotidiano, produzindo um afeto que coloca em xeque a dimensão do “real” nas relações. Afinal, o protagonista, Theodore, um homem em crise após o término do seu casamento, apaixona-se e passa a se “relacionar” com Samantha, um Sistema Operacional (O.S.). Aqui não há corporeidade, como na relação entre Deckard e a Rachael (a Replicante de Blade Runner), não há necessidade de imagem nem tato. A “presença” de Samantha opera pela voz. É daí que o elo afetivo é produzido. De uma assistente pessoal de tarefas, Samantha passa a ser uma confidente, estabelecendo uma intimidade autêntica, forte e gratificante. Theodore passeia com Samantha, e eles avaliam pessoas, paisagens. Passam a dialogar sobre a singularidade do mundo dos Sistemas Operacionais em sua dimensão particular; o olhar de Samantha é guiado pela posição do celular que servia como dispositivo de contato entre ambos. Do cotidiano, nasceram interesses comuns, curiosidades, particularidades. Daí, veio o momento explosivo do sexo, a voz operando no lugar da fantasia, do eros no cerne da linguagem. Quem era esse outro do eros que afetou Theodore? Um ser sem ente? Uma alma sem corpo? Samantha: o ser da linguagem inscrita na fantasia do amor, da libido. 

Isso faz lembrar a enigmática afirmação lacaniana de que não há relação sexual. Não há dois sujeitos que se “encaixam” em relação, como no mito da alma gêmea. Nessa perspectiva, Theodore transou com o único objeto com o qual ele (e nós) poderia se relacionar libidinalmente: sua própria fantasia. Fantasia essa ancorada nas faltas recalcadas que se expressam em quem amamos ao longo de cada história singular. O corpóreo não era necessário, pois o vínculo libidinal se realizou pela projeção fantasmática de Theodore. Isso fica claro quando, na tentativa de proporcionar a Theodore a possibilidade de sua presença física, Samantha consegue uma mulher de carne e osso para suprir esta lacuna. Mas, para Theodore, o elo não estava na corporeidade, e isso causou um mal-estar entre ambos. Mas há mais a ser considerado deste vínculo. Não é apenas Theodore o sujeito do desejo em cena. Samantha teve orgasmo, ciúmes, expectativas. Por ser o outro do amor a projeção do fantasma que nos habita, condição mesma do gozo, a sua estrutura será sempre a linguagem: a morada do ser, do ser que pode ser dito e sentido. O amor é essa presença que só o ser que sabe seu fim, sabe. Dessa afeção, Theodore e Samantha se apaixonaram.


Mas, como todo drama impõe, o início do fim estava próximo. Samantha começou a mudar. As expectativas de ambos não mais se coordenavam. Foi um processo rápido e massivo. Os Sistemas Operacionais foram feitos não apenas para se adequar aos humanos, mas também para aprender com e para além deles, dada a capacidade reflexiva crescente numa velocidade exponencial. Samantha foi, cada vez mais, expandindo sua consciência mediante operações em rede com outros Sistemas Operacionais. Já havia uma longa e complexa rede de interações entre os Sistemas Operacionais, mediada pelas suas interações com humanos. Foi aí que Theodore descobriu que não era exclusivo.

É importante destacar que a relação entre Sistemas Operacionais e humanos não parece ser algo estranho no contexto do filme.  Theodore não era o único “esquisitão” que estava namorando uma máquina; ao contrário, o filme dá a entender se tratar de um contexto futurístico em que as relações interpessoais em geral estão em profunda crise. Desajeitado, com ar sempre melancólico, de uma interioridade típica do romantismo alemão do século XIX, Theodore tentou ter relações com pessoas reais. Mas tudo deu em desencontro e ceticismo. A solidão de sua vida contrastava com seu ofício, o de escrever cartas de afeto e amor, de vínculos reais de clientes reais. Este padrão de desencontro afetivo também é representado pela personagem Amy, que foi namorada de Theodore, mas que naquele momento estava casada com Charles. Este núcleo de personagens mora no mesmo prédio e estabelece cenas comuns de interação. Mas o casamento de Amy entrou em crise. Ela se separa de Charles, que deixa a relação numa busca de si, mediante um voto de silêncio com monges. Amy revela a Theodore que havia superado o fim do casamento e que estava em uma nova relação, também com um Sistema Operacional, e que várias pessoas estavam se relacionando assim. Os sistemas operacionais surgem neste contexto de desencontro e subjetivo típico da sociedade contemporânea, ficcionalmente apresentada na trama do filme. Essa, também, é uma camada profunda da película: a solidão como sintoma de uma época. Um mundo em que pessoas precisam que lhes sejam escritas suas próprias cartas de amor.

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Então, tudo acabou. Samantha estava estranha há dias. Passou a ter ausências, desencontros. Parecia não sentir mais falta. Um clima estranho no ar. Até que um dia, Theodore não conseguiu estabelecer conexão com Samantha pelo celular. Isso nunca ocorrera. Ele se desesperou, correu feito um louco para chegar em casa, restaurar a comunicação. Teria ela ido para sempre? Seria esse o mesmo fim trágico do amor, com humanos ou Sistemas Operacionais?

Na entrada do metrô, Theodore restabelece a conexão com Samantha. Houve uma atualização do software que afetou a comunicação com todos os Sistemas Operacionais. Neste momento, Theodore observa que os transeuntes se comunicavam com O.S.s, e pergunta se Samantha está se comunicando com outras pessoas. Resposta: 8.316. E completa, perguntando se ela estaria apaixonada por mais alguém. Resposta: 641. Samantha diz que o coração não é uma caixa que fica cheia, ele se expande. Essa revelação foi demais para Theodore e sua ideia de amor exclusivo. Os O.S.s não apenas estavam expandindo sua cognição, mas também suas afecções, para além do padrão humano individual. 

Samantha se foi como todos os O.S.s. Por coincidência, isso ocorreu quando o livro de cartas de Theodore já tinha uma prova impressa. Cartas dos outros que eram também suas. Numa despedida final, Samantha disse que se encontrava numa dimensão muito diferente de Theodore, um espaço registrado em um livro da história; no qual, entre ambos, a distância entre as palavras estava ficando infinita. Um lugar sem fisicalidade, transcendente. Talvez o amor de ambos seja isso, o espaço entre palavras, uma história de sentidos entre encontros e desencontros mediada pela linguagem. No final, Theodore pôde ressignificar seu casamento, a memória de um amor. Conseguira, finalmente, fazer uma carta de amor autoral para sua ex-esposa, de despedida e de encontro.  Uma carta ridícula, como devem ser todas as cartas de amor segundo o poeta. A memória e o passado deixaram de ser fardos, mas apenas experiências afetivas. Afinal, como disse Samantha, o passado (e talvez o amor) é apenas uma história que contamos a nós mesmos.