terça-feira, 4 de agosto de 2026

CARTAS E PROVAS


Prezadas e prezados,

Cartas significam muito para mim. Não por um ato de vontade nem por ideologia. Percebi isso recentemente, quando um aluno me perguntou por que minhas avaliações eram sempre no formato de carta — pergunta que, aliás, já virou tradição na primeira aula. Fiquei sabendo que os veteranos tocam o terror, anunciando aos calouros que eles terão disciplina com o “professor das cartas”. Sempre respondi com uma justificativa racional, fundamentada em sólidas teorias sobre avaliação de habilidades e competências. Mas há mais. Revolvendo a memória, percebi que tive dois encontros marcantes com as Cartas: um no início da Faculdade de Direito e outro ao me formar.

O vestibular para Direito era concorrido. Naquele tempo (no ocaso da dinastia Aquemênida), havia apenas a Faculdade de Direito da UFBA e a da Católica em toda Salvador. Ou seja, ser “estudante de Direito” tinha certo prestígio: futuro bacharel, anel de doutor, aquela coisa. Marcador claro de distinção social. Para entrar no Olimpo havia a maratona insana do vestibular, instrumento condicionado por múltiplos fatores de diferenciação social e privilégio. Mas eu tinha uma relação afetiva com o saber, que foi decisiva nessa disputa. Para minha família, a ideia de mobilidade pelo estudo era central — e isso veio das duas matriarcas, Vó Conceição e Vó Izabel: uma empregada doméstica, outra lavadeira, ambas analfabetas. Minha vó Izabel aprendeu a ler, já idosa, só para ler a Bíblia.

Foram elas que perceberam que a mobilidade geracional só seria possível pelo estudo, não como dádiva, mas como brecha. Como foi segurar a barra, sendo mulheres vulnerabilizadas em tantos níveis e criando os filhos sozinhas? Mais que estratégia, havia ali também uma ética do saber. Nenhum saber era ruim. Conhecer empodera não só na vida concreta, mas no mundo interior. Fortalece diante do mistério; é saber que se sabe vivendo junto. O saber que elas tinham de olhar as plantas e as pessoas, aquela fé que sempre estranhei, mas que sustentou tudo. Estudar era um ethos, e dali veio essa pulsão do saber que herdamos. Somos uma família de professores. É desse lugar do saber, em que se deseja junto, um amparando o outro (e brigando), que veio meu diploma de “dotô”. Todo saber me encanta, e ser baiano me fez sincrético ab ovo (um topos importante).

Voltando: diante do desafio do vestibular, no dia fatídico da redação, a UFBA inovou. Não pediu uma dissertação, como era regra, mas uma Carta, modelo que já havia sido usado pela Unicamp. E mais: não era qualquer carta, era “faça uma carta de amor”. Quando li o enunciado, meu Marte em Aquário e minha Vênus em Libra falaram ao meu ouvido: agora é sua hora. (E sim, astrologia tem mais evidência que pós-estruturalistas franceses tidos como gênios. E sim, o conteúdo deste parêntese pode determinar o prosseguimento de sua leitura e mesmo de nossa eventual amizade.) E foi assim que entrei na centenária e egrégia Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.

O segundo encontro com as cartas veio no final do curso. Eu já estava formado; faltava apenas a colação de grau. Discursos e juramentos. Nessa época, no SAJU, havíamos atendido uma comunidade do Tororó em uma ação de reintegração de posse. Na semana do Natal, revertemos a ordem judicial. Eu seria o orador da turma. Perto de proferir o meu discurso (Turma Gregório de Matos Guerra, 1993.2 a.C.), Isaac Reis, amigo que formou comigo, apareceu com um envelope verde-amarelo e me disse: "véi, não leia agora, não". Talvez desconfiasse do conteúdo. Lembro que várias famílias atendidas pelo SAJU foram à formatura. Foi lindo.

Após a cerimônia, abri a carta. Era de uma líder comunitária do Tororó que havia procurado o SAJU e lutado conosco. Ela pedia desculpas por não poder comparecer, contava sua vida, suas venturas e desventuras e me chamava de “dotô Vladimir”. Era como se eu estivesse com ela: uma conexão que não era só com a liderança, mas com a pessoa que se abre ao diálogo como registro, como partilha. Outro dia, arrumando papéis antigos, encontrei essa carta e a reli. Considero que essa carta foi o segundo Diploma que a UFBA me concedeu pelos encontros e desafios humanos que me proporcionou.

Vejam, portanto, que minha relação com Cartas é antiga. E mantive essa tradição ao longo da vida. Quando o professor Carlos pediu uma forma de avaliação sobre os temas das aulas que tivemos (Viehweg, Warat e Sloterdijk), não titubeei: tinha que ser em forma de Carta. Até porque a turma compreendeu, na prática, o sentido dionisíaco da aula. Baco subiu o Valonguinho e foi prosear com Warat, enquanto Lênin, com sono, insistia em dizer o que fazer, afinal, todo Vladimir tem fama, injusta, de mandão.

Diante disso tudo, retórica e afetivamente apresentado, a melhor forma de avaliar, com Warat, é pelo diálogo em primeira pessoa. Façam uma carta-resposta a esta. Digam-me: como as questões da tópica, da retórica, do senso comum teórico e do cinismo reverberaram em vocês e em suas pesquisas? A Carta não invalida o aprendizado da linguagem acadêmica “séria”, ela apenas serve como exercício de escrita e de memória. Não esqueçam que grande parte da teoria europeia do Direito, e mesmo a psicanálise, foi produzida por diálogos mediados por cartas. Kelsen e Freud foram grandes missivistas. E de muitas dessas conversas nasceram teorias que hoje lemos em livros.

Aliás, como disse Sloterdijk, citando outros, livros nada mais são que cartas, um pouco mais extensas, endereçadas a destinatários anônimos que, mesmo distantes, aceitam estabelecer um diálogo que atravessa séculos: às vezes como Humanitas, outras vezes como tragédia (esta última parte dramática é por influência da minha Casa 10 em Câncer). Em suma: é cilada, Kelsen, sempre foi, e não ato de vontade.

Aguardo as respostas.

Vladimir de Carvalho Luz

Do Largo da Batalha em 12 de dezembro de 2025.


* Instrumento de avaliação dos temas que lecionei na Disciplina do PPJA da UFF em 2025.

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