sábado, 19 de abril de 2014
sexta-feira, 7 de março de 2014
ISAAC
*
As baratas continuavam a invadir
a casa. Por entre frestas úmidas do grande sobrado, os pequenos insetos
esgueiravam-se durante a noite, invadindo os cômodos desocupados. No piso superior,
as baratas preferiam passear no estúdio abandonado, misturando-se ao pó dos
quadros antigos, aproveitando a textura gasta das grossas cortinas de algodão.
Já no piso inferior, o grande salão de festas era o palco predileto dos insetos
silenciosos. Uma por vez, tal qual exército disciplinado, as baratas chegavam
ao salão descendo pelo forro, voando pela janela, como tivessem sido convidadas
para uma noite de gala. Dessa forma ordeira. elas iam se acomodando, comiam e
bailavam, dia após dia, sempre em número
cada vez maior. Na medida em que crescia o número de insetos em casa, aumentava
também no velho Isaac o seu amor por Laila.
**
Sentado em sua cadeira de
balanço, o velho Isaac tomava seu chá da tarde. Mesmo naquela hora, o
barulhinho de pequenas patas se arrastando já poderia ser ouvido. O ocaso ainda
derramava suas últimas luzes nos amplos espelhos da casa, quando o velho ouviu
os passos de Laila. Ah... como era possível ainda lembrar dos olhos de sua
falecida esposa. Grandes olhos de cor incerta, como pontos de luz perdidos em
alguma direção. Então ela chegava, quase sempre no mesmo horário, pousava suas
finas mãos sobre os cansados ombros de Isaac. Ele podia sentir as afiadas unhas
de Laila arranhando o seu braço. O pensava em voz alta: “mor, que saudade eu
tenho de suas unhas afiadas”. Mas sempre que ele murmurava tais pensamentos as
baratas não se incomodavam, continuavam impassíveis, saboreando a carne do bom
velho Isaac.
***
À noite, como fazia há anos,
Isaac vestiu seu terno preto. Apesar dos anos de prática, já não conseguia dar
um nó simétrico. E como sempre acontecia, ao descer a grande escadaria rumo ao
salão, vinha-lhe a imagem da grande festa de 1935. Lá estavam todos os seus
amigos. Marcos Silva, recém-chegado do exército, e sempre com seu traje
impecável. Catarina, a enigmática Catarina, vestida com panos flutuantes,
falando alto, empolgada com a música e o vinho. Pais, tios, até o seu avô,
Abraão, estava já. Um momento verdadeiramente inesquecível, justamente porque
no meio da multidão, em pleno clima vaporoso, um olho cintilante brilhava, era
ela: Laila.
Não foram necessárias palavras.
Isaac lembrava-se da forma instantânea em que os dois se olharam, e, num
encontro repentino dos seus corpos, passaram a dançar no imenso salão. Enquanto
se embebedava com as lembranças, Isaac rodopiava no agora empoeirado salão.
Como naquela noite inesquecível, agora também todos os olhos estavam voltados
para o casal. Só que agora os pequeninos olhos, diminutos pontos na escuridão,
não conseguiam entender tamanha empolgação do velho Isaac.
****
Após todo o ritual de lembranças,
o velho Isaac ia se recolher. Deitado em sua grande cama (o espaço ao seu lado não
era menor que a dor de sua alma), Isaac descansava seu velho ser fatigado de
imagens. Porém, como também já vinha acontecendo há anos, antes de dormir Laila
lhe acariciava o corpo, e o velho sentia na carne suas unhas afiadas, o passear
delicado de suas mãos, até que ele sentia um toque úmido nos lábios. Só depois
deste rápido contato, o velho Isaac poderia dormir em paz, e as baratas se
despediam do bom velho, desaparecendo em seus obscuros esconderijos, à espera
de um novo encontro, ansiosas por novos gestos de amor.
Vladimir Luz (Conto publicado na Revista da Academia Criciumense de Letras, 2005)
Gravura: "En el baile" de Edward Cucuel
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
A GRANDE BELEZA
"O mundo é uma obra de arte que engendra a si própria'
(Nietzsche, Vontade de Potência)
***
Não
era uma questão de opção: ele estava destinado à sensibilidade. Deitado em sua cama
podia ver o mar no teto com todo aquele azul intenso e infinito. Ondas, ondas. Da
sacada de seu apartamento, o Coliseu se abria aos olhos como um quadro. Outrora
homens ali morreram e se divertiram, sangue e risos foram gravados em cada tijolo
daquelas colunas magistrais. Mas sempre ela, sempre ela, a sensibilidade. Festas, riso,
dança, sexo, rotina, e sempre ela a espreitar, a sensibilidade. Ele era assim
não por simples decisão, era seu mandato ser um observador metafísico, mundano,
irônico e incrédulo dessas coisas intensas e ao mesmo tempo ridículas que
somos.
No meio disso tudo, por certo, havia uma busca inaudita. Quem saberá? Quem poderá ver a grande beleza? Mas
o fato mais latente é que havia uma profundidade imperceptível em toda
superfície, e ele bem sabia disso. Fenomenologia, diriam os doutos. Cada detalhe, como as reentrâncias e cores do mosaico da Via Triumphalis, cada gesto
humano, por mais fútil e banal, espancava-lhe a sensibilidade inata e bruta. Era como não
se lhe fosse dado o direito de ignorar que, mesmo com toda sua grandiosidade, há
frestas no Coliseu. As ruínas são os corpos esquecidos do novo. O novo esta nas
fissuras. Seres humanos participam compulsoriamente desse enredo. Basta ver o que se gravou em cavernas, papiros, pergaminhos e blogs. Pobres animais falantes, irremediavelmente jogados na consciência do constante vir-a-ser, que buscam, inconscientemente, gravar algo sólido e imemorial no presente fugidio. Tudo então se resumiria – essa longa história depois do verbo –, a frestas e rugas, pedra e carne. No pó das ruínas sim, ali havia uma essência, séculos de ontologia: início e fim. Por
tudo isso, amiúde ele percebia que em cada gesto humano há uma clareira, um
enclave, um lugar cinza entre o velho e o novo, um campo agônico entre o grandioso
e o fútil. Por isso, então, temos a arte, essa testemunha parida das coisas que só a
sensibilidade captura. E ele olhava tudo isso com aquele olhar de quem já viu
muito, viveu muito. E mesmo com tanto, escrevera apenas um livro. Para que
mais? Para que? O final já não é por demais sabido desde o início? Festas,
riso, dança, sexo, rotina e ela, sempre ela, a sensibilidade; aquela que não o
deixaria nunca, mesmo agora quando tudo já tinha o cheiro ácido do tempo. Jep
Gambardella acabara de completar 65 anos.
**
Li
muitas coisas sobre o festejado filme de Paolo Sorrentino "La Grande Belezza". Coisas como: a influência
de Fellini, Roma como cenário, a multiplicidade de temas num roteiro não
linear, um conflito entre o novo e o velho, clássico e pós-moderno, uma crítica
à futilidade da sociedade e à superficialidade da arte contemporânea, decadentismo,
brevidade do tempo, existência, hedonismo, enfim, um filme pretensioso...
Respondo a tudo isso com “Jepinho”: blá, blá, blá.
Nada
disso, isoladamente, parece-me tão relevante assim. Ainda que haja, de fato,
todas essas questões – o que já faria do filme algo genial –, "La Grande Belezza" trata, em verdade, de
algo infinitamente relevante e sutil: a experiência da vida como uma experiência
estética. Aí a coisa pega, e pega a todos nós. Ademais, não só por Roma e pelos
personagens caricatos vemos a presença de Fellini em “A Grande Beleza” como
dizem insistentemente os críticos. O grande maestro se faz presente no elemento
onírico que atravessa todo filme, mitigado, é certo, pelo estilo próprio de
Sorrentino. O que atravessa é o absurdo da realidade e do cotidiano, dos tipos
humanos, o ridículo que convive com a beleza, e, em meio a tudo isso, ao lado de toda superficialidade, do medo e de todas
as belezas, há sempre a grande beleza, aquela que não precisa de uma razão
controladora. Ela é. Para a grande beleza, há também uma “grande arte”. É essa experiência estética em estado bruto que chega, que
toca. Tudo isso é decantado finamente num roteiro propositalmente repleto de
experiências e tipos humanos: o padre (cotado a Sumo Pontífice) que jocosamente foge dos assuntos sérios e
espirituais e fala de receitas, a vida mundana de novos ricos e suas festas
bregas, os nobres decadentes com suas mansões suntuosas, a religiosa tratada
como “santa”, a pintura contemporânea feita por uma criança que joga tintas aleatoriamente em um
painel. No centro do filme esta o olhar de Jep Garmbardella, um “bon vivant”,
um cético jornalista que escrevera apenas um livro, e que vive os tormentos do
tempo e a lembrança da mulher que amara. É neste aspecto sutil que o filme "La Grande Belezza" pode ser chamado, sem exageros, de obra-prima: exatamente
pela experiência estética proporcionada pelos olhos de Jep Gambardella. Jep somos todos nós. Dessa identidade humana é que se faz a grande arte.
*
Jep
Gambardella escrevera apenas um livro. O que ainda há por ser dito? Tudo já foi descoberto
pela razão. As coisas inevitavelmente passam. Pessoas morrem. Frestas ficam. Cicatrizes. Talvez
possamos, à noite, encontrar aquele amigo que é o guardião das chaves dos palácios para então passear por entre os salões da tradição e assim trapacear com o
tempo. Talvez possamos nos fechar ao falatório do cotidiano. Ir ao silêncio dos
antepassados e beber dos clássicos seu vinho raro. Tocar o mármore primevo do
sentido com o cinzel utilizado pelo demiurgo que deu forma e vida a tudo isso que não se
explica. Mas Jep sabia que não há escapatória: há festas, riso, dança, sexo,
rotina e ela, sempre ela, a sensibilidade. No fundo, o instante desencontrado do
amor é a grande arte, seja ela o que for.
Por tudo
isso é que não se consegue sair do cinema imediatamente após o término de a “A Grande Beleza”. Letras descem (ondas, ondas) e lá ficamos, paralisados. Entramos em nosso Coliseu. De repente, por segundos, pairamos em um território inóspito de nós mesmos, onde girafas, cadeiras e o cinema desaparecem. É que ela, mais uma vez ela, sempre esteve ali: nesse lugar que às vezes voltamos, mesmo sabendo que tudo
é um truque.
Bravo!
08.02.2014
Vladimir
Luz
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
SUA ESCRITA
Como um dia em Laranjeiras
Uma tarde em Botafogo
Um pôr-do-sol na Gávea
Um olhar perdido na Tijuca
Naves em Niterói
Escrita como um amor instantâneo
Como essas pedras colossais
Granito e suor
Quisera eu escrever assim
Com vísceras
Com alma (lavada ou não)
Ser que recusa ser ente
Pão saído do forno
Café no copo
Sono abraçado
Uma mão que se estende entre praças
Monumentos de prazer e ócio
Corpos que se devoram (na esquina do Leme)
Quisera eu escrever assim
O Rio seria palavra inaudita
Ferida
Partida
Encontro
Aí sim - eu escreveria como você.
20.01.2014
Vladimir Luz
(Revisão, diagramação e afins de Rosane Serro)
domingo, 24 de novembro de 2013
POEMA PARA DANÇAR EM CASAMENTOS
...
Quando a porta se abriu
E a voz, ao fundo, cantarolava
O sol pode se abrir
O tempo sorriu
Todos dançavam
E não havia rancor em seus olhos
Beijos do passado, nem nós atados
Apenas imagens de cristal
Caleidoscópios
Ao longe
Pés na grama, cachorros latindo
Riso discreto da menina do canto
Abraços tão forte como o vento do sul
Foi, assim, como num filme
Alaridos, serpentinas
Crianças correndo pela sala
Medos solenes em vinho
Couraças de papel
Partituras de chocolate
Amarras de algodão
Sapatos de nuvens
Portas de espuma
Carinhos de ondas
Nucas de morango
Afagos de proparoxítonas
Sexo onomatopaico
Calafrio sem pudor
Máquinas de escrever
Muitos lá-menores
Sustenidos
Com sétima
e..
Quando a porta se abriu
Solenemente
Eu pude dizer
Sim
Quando a porta se abriu
E a voz, ao fundo, cantarolava
O sol pode se abrir
O tempo sorriu
Todos dançavam
E não havia rancor em seus olhos
Beijos do passado, nem nós atados
Apenas imagens de cristal
Caleidoscópios
Ao longe
Pés na grama, cachorros latindo
Riso discreto da menina do canto
Abraços tão forte como o vento do sul
Foi, assim, como num filme
Alaridos, serpentinas
Crianças correndo pela sala
Medos solenes em vinho
Couraças de papel
Partituras de chocolate
Amarras de algodão
Sapatos de nuvens
Portas de espuma
Carinhos de ondas
Nucas de morango
Afagos de proparoxítonas
Sexo onomatopaico
Calafrio sem pudor
Máquinas de escrever
Muitos lá-menores
Sustenidos
Com sétima
e..
Quando a porta se abriu
Solenemente
Eu pude dizer
Sim
sábado, 26 de outubro de 2013
REVOLUÇÃO
Por onde anda a sua revolução?
Talvez ela esteja escondida nos pequenos afazeres do dia
Tímida, entre o banho e o café da manhã
Acanhada, cismada, observando as cores da TV
Sua revolução abraça o travesseiro em noites de insônia
Espera ligações que nunca chegam
Em cada segundo do dia sua revolução rumina lembranças
Caiando de vermelho o céu que nos observa
O mesmo céu dos antigos, moldura do homo sacer
Por onde anda nossa revolução?
Perdida em sonhos – quiçá os mesmos de antes
Corpos perfilados, pólvora e morte
Nossa revolução se esconde nesses abraços apertados
Nesses olhares que nunca se encontrarão – quiçá outros doravante
Revolução sem ganhadores nem perdedores
Uma revolução mesquinhamente libidinal
Carne e suor
E foi assim que tudo aconteceu
A revolução chegou silenciosa
Abriu as janelas
E, num desses dias de calor carioca,
Nua
A revolução se fez
26.10.2013
Vladimir Luz
domingo, 20 de outubro de 2013
AFROEMAS – Xangô (100 anos de Vinicius de Moraes)
...
Para quem tudo foi tirado – Todos são iguais perante a Lei?
Para os que viraram coisa – famélicos do mundo!
Para os que rondam os palácios de mármore – Construídos por
quem?
Eis a sombra do fogo que desce o caminho
Vermelho, sangue de tantos
Eis a justiça, epieikeia – Oxé!
Para os que erguem tribunais espúrios – atiram a primeira
pedra?
Para os sacerdotes da verdade – vendilhões que buscam templos!
Eis a sombra do trovão, Zeus – Yorubá
Para os que têm sede de justiça – urdidura do presente
E não perdem a ternura
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