quinta-feira, 12 de setembro de 2013

ANA LUZ

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Vem, mãe... hoje é o dia
O dia nasce
Nascem mães
Mães parem
Parem filhos com asas
Primeiro eles titubeiam, mas saltam
E eles voam, esse filhos que sempre são filhos
Nascidos, os filhos às vezes teimam em voar
Mas vão

Vem, mãe...
O dia parte
Homens e mulheres partem
Vão e vem - sempre foi assim, e será
Pega minha mão
Aquela mão pequena, menino mirrado
Carne de sua carne, sangue do seu sangue
Espelho de tanta gente que veio antes
Antes, antes de tudo
Lá no começo de tudo
No primeiro dia no qual a primeira mãe nascida se fez

Vem, mãe
Estou aqui
Antes do verbo
No silencioso mistério do dia
Entregue a esta profunda conexão que nem a poesia recupera
Nem o tempo nem a razão capturam
Isso que chamam amor

12.09.2013

Vladimir Luz

quarta-feira, 3 de julho de 2013

MÉMORIA DO 2 DE JULHO (Parte II)

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Se hoje fosse 2 de julho
Poderíamos encontrar Carlinhos na subida do Taboão
E com ele recitar seus poemas escritos nas provas de Física
Unidos pela luta de tantos
Memória que não se apaga, como um vento forte
... que sempre veio do leste

Se hoje fosse 2 de julho
O amor seria brasa que queima a epiderme da alma
Ferro que marca, grilhão cindindo pelo sonho
Poderíamos, então, sair até o Campo Grande
Pés na terra
Terra molhada
Nada mais além disso

Mas hoje não é 2 de julho
É tempo de outros lamentos
Dos heróis de si mesmos, que dormiam o sono cálido dos justos
E que acordaram pálidos pela luz de tantas verdades
Verdades que se levam a sério demais, como as minhas

Se hoje fosse 2 de julho
Não seria o dia do Juízo Final
Nem a redenção dos puros
Tampouco o fogo da vingança
O ardor do ódio
A revolução regada a conforto
Seria apenas um dia sem máscaras
Sem papéis ou desculpas
Culpa ou promessas eternas

Seria apenas
... 2 de Julho

Vladimir Luz
03.07.2013


 Foto de Pierre Fatumbi Verger

domingo, 23 de junho de 2013

DOMINGO


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Quisera a minha ilusão ser igual a sua
Poderíamos cantar juntos
Bebericar amenidades em algum bar
Rolar na grama

Mas a minha ilusão é parte do todo que me faz
Visão tosca dos meus pequenos simulacros do dia-a-dia
Olhares difusos, apertos de mão
Ensaio de beijos nunca dados
Verdades consumidas por segundos
Silêncio que corta tudo e todos na esquina da linguagem
Uma paz sempre cambaliante e ébria

Pudera ser eu mais que minhas ilusões
Num mundo de Pangloss, onde tudo é como deve ser
Herói de diplomas e livros de couro
Ator ofuscado, esperando aplausos ao cair o pano
Abraço que dura o tempo da eternidade
Ah, a eternidade...

Por enquanto, resta a desconfiança
A espera, o desejo que exista algo mais além
Além-mar, além-tela, além do além
Algo como agora
Domingo



Vladimir Luz

Gravura: Escher

domingo, 2 de junho de 2013

LIRISMO URBANO

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Coberta de sol
A cena então se fez
Repleta de solidões acompanhadas
Cheia de gente ao redor, ruído e rubor
Carros, transeuntes

E por um Instante breve
Todos os corpos pararam  
Como se fossem seu último labor
E de memória, fez-se um hino
Por lá onde desfilam todos os seres
Lugar da palavra não-dita
Lugar do instinto insone

E tudo se fez antes do inicio
Antes, bem antes do verbo
Antes mesmo de todo  silêncio
E num sopro poético

Luz 
....
Fiat Lux



02.06.2013

Vladimir luz

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

LASCIATE OGNI SPERANZA ...


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Ouve
Eles gritam por justiça
Passeiam rápidos nas sombras
Quebram janelas
Marcam casas
Entoam cantos
Pisam em nome da pureza que não sabemos cuidar
E cobrem de exéquias os últimos sonhos

Olha
Seus dedos em riste
A pedra lançada, a primeira
A testa franzida, soberana e provecta
O corpo ereto
Eles dominam os mistérios
Sabem  do bem e do mal
E com o fogo sagrado, purgam nossos pecados
De cuja fumaça não restará lembrança

Dorme
O sono dos justos
Pois, finalmente, estamos todos salvos
Do lobo que esgueira como cordeiro
E enche de lama nossas fontes puras
Nossas tímidas consciências salvas
E ao repousar
Sonha com o amor imaculado
Invisível
Intangível
Doce
Acre como o sangue alheio
Afinal
Eles sabem o que fazem

12.12.2012

Vladimir Luz





Rodin: A porta do inferno

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

MEU PAI

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Minha Irmã Rai me contou. Era cedinho, eu estava no berço. Meu pai chegou silencioso e apressado. Ele pegou umas roupas e se despediu dela e de mim com um afago. Rai lembra que dois homens estavam fora de casa, esperando. Dali meu pai seguiu direto para o quartel. Rai, apesar de muito jovem, nunca esqueceu essa cena: meu pai sendo preso pelos agentes do regime militar de 1964.

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Minha avó Izabel chamava seu filho, Raimundo Batista da Luz, carinhosamente de “mundim”. Orgulhava-se do filho que tinha duas formaturas (Administração e História). De minha avó ouvi a estória de que ela teria estrategicamente enterrado os livros de “Mundim”, livros vermelhos. Naquele tempo livros eram perigosos. Os amigos o chamavam, e até hoje chamam, carinhosamente de Batistinha. A política, os amigos, a vida vivida intensamente sempre conduziu meu pai. Lembro dos tempos de APLB, dos debates da CUT, da formação do PT. Logo após a abertura, nas primeiras eleições para vereador, tenho vivamente na memória a foto de meu pai na TV, com um número (de sua candidatura). Isso era a propaganda política da época. Minha mãe guarda até hoje uma foto publicada na capa do Jornal A TARDE em que estou eu e meu pai, no Campo Grande, num dos primeiros comícios de Lula após a fundação do PT.

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Atualmente meu pai mora em Pituaçu na cidade de Salvador, onde leva uma vida simples. Mas, qual característica de Batistinha seria mais marcante para mim? Quando falamos de nossos pais, há uma tentadora tendência de se fazer apologias, ou, contrariamente, por vezes, consciente ou inconscientemente, cometemos injustiças e distorções. Atento a estes riscos, de meu pai, esse “espírito livre”, desorganizado para as coisas materiais, ex-preso político, militante, homem alheio às demandas da “vida prática”, há um componente muito importante que hoje percebo claramente. Aos olhos da sociedade atual, para a qual uma pessoa vale pelo carro ou pela roupa de marca que usa, ou mesmo pela esperteza de pautar sua vida em estratégias estritamente pragmáticas, qual seria o legado de Batistinha? A resposta para tal indagação, que já se enunciava de forma intuitiva, veio recentemente.

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Contardo Calligaris, num Café Filosófico em que se discutia “a crise do macho”, teve que responder uma pergunta feita por uma ouvinte queixosa dos homens. Antes, Contardo sustentava a hipótese de que há, no imaginário masculino, duas questões centrais: uma, a relação complexa entre devaneio e mundo concreto, que impulsiona a psique masculina sempre rumo ao suprimento de expectativas (maternas e das mulheres em geral), que são de difícil realização, o que gera uma sedução pela quebra do cotidiano, o desejo constante pelo alhures. Outra característica, ligada à primeira, refere-se ao heroísmo da guerra como elemento determinante do ideal masculino. Nessa perspectiva, o desafio da morte que a guerra representa seria a marca da mestria masculina. Há também o movimento de despedida que marca a ida para a Guerra. Agonismo e altruísmo estariam no cerne dessa marca masculina, pautada na assunção e erotização do risco, no qual sobreviver (parte do concreto cotidiano) não é mais importante do que viver. Ao final da exposição, a referida mulher presente na plateia disse, indignada, mais ou menos o seguinte: os homens são preguiçosos, covardes. Guerra é fácil, heroísmo mesmo é a vida real, concreta, ir ao supermercado, pagar contas. Contardo sorriu. Em seguida, respondeu, em síntese:



“Vou lhe responder de um ponto de vista masculino porque é o meu ... concordo com você que é preciso de muita coragem para encarar a vida cotidiana ... é preciso de uma coragem de um tipo diferente ... o problema é que a coragem do devaneio, por exemplo, é também de considerar que a coisa mais concreta que a gente tem, a vida, não é necessariamente um valor supremo...e tem momentos nos quais é muito bom que seja assim... de novo só posso pensar nos termos que eu verdadeiramente aprendi.. nos termos da vida que aprendi com os meus pais...o meu pai era profundamente inepto do ponto de vista da vida concreta.. desse ponto de vista era um macho perfeito ... não tinha nenhuma gestão da casa ... e não sabia assinar um cheque, contrariamente a mim e meu irmão ... não sabia nem fritar um ovo... mas se não fosse pelo tipo de coragem dele talvez a Europa de hoje seria uma Europa pós-hitlerista ou nazista... essa foi a coragem dele. Precisava que alguém dissesse não, tem coisas pelas quais a gente, o filho da gente vale a pena morrer... porque não vale a pena viver dobrando a cabeça ...eu acho isso tão importante quanto... ”

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Pois bem. Mais que concordar ou não com a tese exposta por Contardo Galligaris, do jogo difuso das expectativas femininas moldando as masculinas, e todas elas sendo modificadas ao longo do tempo, algo importante emerge de minha reflexão pessoal.

A vida de meu pai foi e é a síntese de um heroísmo masculino do alhures, que hoje representa algo distante das vidas cotidianas. Não foi melhor nem pior que outras, tampouco exemplo de perfeição idealista. Longe disso. Tudo teve (e tem) um preço. Batistinha talvez não saiba, mas ele me mostrou que existem coisas pelas quais efetivamente vale a pena morrer. Se não se sabe disso, nenhuma vida, por mais confortável que seja do ponto de vista material, vale a pena de ser vivida.

15.11.2012

Vladimir Luz






sexta-feira, 12 de outubro de 2012

CAFÉ COM WARAT



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Warat acalentava a ideia de abrir uma faculdade de direito em Curitiba. Havia uma criativa corruptela que já marcava o nome da Faculdade: LAW – Luis Alberto Warat. Sua logomarca era um pinguim que sugeriria uma ruptura de padrões. Warat achava que o problema do ensino jurídico era justamente a sua “pinguinização”, com a qual juristas se comportavam, se vestiam e pensavam todos iguais. O projeto do curso era, como Warat, único. Arte com eixo básico. Locais fundamentais da escola: um circo e um café, e não salas de aulas. Ao lado das disciplinas obrigatórias, o mais importante era dança (para professores e alunos). Fui convidado para fazer parte do corpo docente deste inusitado projeto. Nem pestanejei. Fui até Curitiba algumas vezes. Numas dessas ocasiões, quando da visita in loco da Comissão da OAB, vivenciei um momento raro.

Estava em um hotel no centro de Curitiba. Desci para tomar café. Lá estava Warat. Sentei ao seu lado. Passamos boa parte da manhã conversando. Na época estava elaborando o projeto de minha tese justamente sobre uma das mais importantes reflexões waratianas: o senso comum teórico dos juristas. Luis Alberto (como era chamado por Marta Gama) falou sobre seu pai, sua infância; tratou de fatos pitorescos sobre Cossio, Nino. Falou de sua fraternal relação com Albano. Foi então que me revelou de onde nasceu a ideia do neologismo “senso comum teórico dos Juristas”. Disse que tal ideia nascera quando da leitura de Althusser (Filosofia e Filosofia espontânea dos cientistas). Eu já desconfiava das origens estruturalistas (Althusserianas ou mesmo bourdieunianas) dessa ideia, ainda que indireta ou inconscientemente.

Lembro deste momento como algo muito importante para minha trajetória, algo que marca meu currículo oculto. Naquela manhã eu não estava diante do meu ídolo de juventude, do mestre de uma geração desbravadora da critica jurídica no Brasil. Naquele momento, estavam ali duas pessoas conversando sobre coisas em comum, rindo da vida e de si mesmos, sem nenhuma pretensão “séria”. Haveria espaço para estes encontros hoje em dia, em nossas rotinas docentes? Nossos currículos lattes comportariam, em algum lugar, o item específico “café com Warat”? Aliás, pouco importa para esta lembrança coisas como lattes e rotinas pedagógicas. Lembro que, entre um gole de café e os suculentos – e hoje politicamente incorretos – ovos mexidos, Luis, o portenho-brasileiro mais baiano do mundo, dizia: “Vladimir, a vida é uma ilusão, precisamos ter as boas, as boas ilusões”.

Que assim seja.

12.10.2012
Vladimir Luz
Foto do dia em que tomei café com Warat.