terça-feira, 6 de setembro de 2011

PALAVRAS




Não sei ser sem palavras

Tudo que tenho são palavras

Sentidos que se traduzem no dito e não dito

Se penso “mundo”, a palavra mundo se faz mundo

Mas ao lado das palavras deixo um espaço

O lugar do mistério

O lugar do caos

Sem início, sem verbo

Apenas substantivo

Candeia que me faz vivo

E finito

Vladimir: Vla – di – mir

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PALESTRA EM SP - SITE DA UPF

17/08/2011 - 16:26
Professor da Faculdade de Direito profere palestra em congresso nacional


Foto: Divulgação/UPF




Professor falou sobre educação jurídica popular e acesso à justiça
O professor Vladimir Luz, da Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo (FD/UPF) proferiu a palestra Educação jurídica popular e acesso à justiça: marcos teóricos e experiências, durante o 1º Congresso Nacional sobre a atuação da Defensoria Pública na Educação em Direitos. A atividade ocorreu na tarde de 11 de agosto, no auditório da Defensoria Pública de São Paulo, capital paulista.

O congresso foi realizado de 8 a 12 de agosto, e incluiu debates sobre educação em direito promovidos por membros da Defensoria e profissionais de diversas áreas – como educadores, antropólogos e psicólogos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

CARTA AOS MEUS ALUNOS DE TC I



Prezados alunos (as),

Já se disse que livros eram, em verdade, cartas feitas para amigos . Essa identidade entre cartas e livros seria ainda importante para nós? Suspeito que sim.

Numa certa concepção clássica e humanista de mundo, livros e cartas apenas se diferenciavam pela extensão, pois ambos, no fundo, colocavam-se como instrumentos vivos do diálogo, do encontro e da partilha, ações que sempre foram fundamentais para a realização do conhecimento humano. Pensando nesses termos, o autor de um livro pode, então, ser visto não como o dono de uma verdade imaculada, um ser distante e abstrato, passando a ser sentido pelo leitor como alguém real, um cúmplice ou confidente. Adotando-se essa percepção, ficará fácil compreender que, ao escrever um livro, determinado autor quer simplesmente partilhar sua visão de mundo e as formas pelas quais conseguiu (ou não) enfrentar problemas que mobilizaram suas forças e desejos. Portanto, sempre que leio um livro, tenho a sensação de estar conversando com alguém cuja presença é real, concreta, como se cada palavra, cada linha, fosse a confidência viva de um amigo, mesmo que suas ideias não coincidam com as minhas. Afinal, amigos não são necessariamente aqueles que pensam igual, mas pessoas que se compreendem e se respeitam em meio a toda diversidade.

Não pretendo, aqui, ser tão exaustivo como um livro. Mas, aproveitando essa identidade perdida (ou desconhecida) entre livros e cartas, inicio nosso diálogo na disciplina Trabalho Monográfico I neste segundo semestre de 2011. Começo nosso diálogo como se fazia nos tempos áureos do humanismo, ou seja: escrevendo uma singela carta.
Pois bem, alunos (as), nesta missiva, pretendo partilhar com vocês algumas ideias pessoais, impressões muito gerais acerca do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), no caso específico de nosso curso: vou tratar da famosa monografia. Algumas questões me ocorrem fortemente quando penso em monografia, quais sejam: (1) para que fazer uma monografia no curso de direito? (2) qual a relevância de um projeto para quem deseja fazer uma boa monografia? (3) Quais os desafios mais comuns que rondam a fase inicial de elaboração de uma monografia?

Enfrentemos, pois, a primeira indagação. Alguém pode pensar que se faz uma monografia apenas por conta de uma exigência curricular. É uma resposta possível e talvez até legítima, ou seja: faço monografia por ser obrigado a fazê-la. Para quem essa resposta se mostrar como suficiente, sugiro pular a parte inicial de minhas considerações. Todavia, suspeito que fazer uma monografia significa muito mais que uma obrigação formal. Para tal questão, posso dar a resposta que eu tenho no momento, a qual não é a única, tampouco a melhor. Vamos a ela: a monografia pode (veja bem, pode) ser um dos momentos mais importantes da formação dos graduandos em direito. Explico melhor: se feita com rigor, ética acadêmica, metodologia compatível e vontade de saber, a monografia é instrumento único na formação do aluno. Vários são os motivos dessa importância. Primeiro, fazer uma monografia implica ser proativo tomar partido, ter de tomar decisões pessoais importantes que não podem ser transferidas para ninguém. Não quero dizer que não se é atuante noutros momentos da graduação em direito; digo apenas que, na monografia, por ser um trabalho de elaboração intelectual do aluno, não há espaço para posturas passivas, pois nós, todos nós, alunos e professores, temos de nos expor, decidir a todo instante o que fazer e como fazer, o que nem sempre ocorre nas tradicionais estratégias de aula expositiva. Há outro motivo, derivado do primeiro: ainda que seja um trabalho simples, a monografia concretiza a missão central de uma universidade, qual seja: realizar a educação superior mediante estratégias de pesquisa. Isso é pouco? Não, esses motivos são suficientes para considerar a monografia um momento estratégico, especial para a formação de vocês.

Vejamos a segunda questão: qual a relevância de um projeto para quem deseja fazer uma boa monografia? Ora, por ser um trabalho que segue parâmetros acadêmicos, é preciso entender que não se faz uma monografia sem um projeto. A qualidade do resultado da monografia depende em grande medida da qualidade do projeto. Um projeto bem elaborado pode evitar problemas no processo de caminhada. O projeto, assim, é como um mapa: aponta os caminhos e as metas, evidencia aos leitores da comunidade cientifica e geral todos os elementos que usamos para o caminhar. Mas, como tudo na vida, penso que um projeto de monografia não é um mapa inflexível, suficiente em si mesmo: ele deve ser dinâmico, ainda que tenha de apresentar elementos mínimos da trajetória que o aluno adotará para escrever sua monografia.
Vamos aproveitar mais a metáfora do mapa. Quando, por exemplo, discutirmos termos como “tema”, pense num pais que você escolheu para sua caminhada; “delimitação do tema” pode ser visto como o local especifico, uma cidade desse país que será o ponto de chegada; o “problema” como a questão que moveu você até ao ponto de chegada, ou aquilo que deve ser enfrentado pelo seu caminhar para atingir meta de chegada. O problema, visto metaforicamente, pode ser muitas coisas que instiga você, aluno-andarilho: um atalho a ser a superado, um desvio que não foi visto, uma melhor descrição, ou a possibilidade e entender como outros caminharam antes de você.
Por ser um mapa, o projeto deve ter elementos comuns, compreensíveis a todos que queiram caminhar conosco. Nesse sentido, as tais regras da ABNT nada mais são que a sinalização, as placas desse mapa, a partir das quais todos da comunidade podem se guiar de forma comum. Por isso que, por serem placas, seguem uma rígida padronização, e a sua formalidade só nos serve para isso: facilitar o entendimento comum do texto. Trataremos dessa metáfora do mapa ao longo das aulas, quem sabe ela nos auxilie de forma efetiva na elaboração desse mapa chamado projeto.

Por fim, gostaria de compartilhar algumas ideais sobre a última questão: quais os desafios mais comuns que rondam a fase inicial de elaboração de uma monografia? Vejamos apenas duas ponderações;

a) fazer um projeto de monografia requer paciência. Nada mais daninho para essa fase de elaboração do projeto do que a cultura “miojo”, com a qual as coisas devem ser feitas quase instantaneamente. Sugiro: ruminar, mastigar as dúvidas. Tudo dentro de certos limites e prazos. Mas reflita sobre o seguinte: algumas vezes é preciso conviver com certa angústia, não para ficar imobilizado, mas no sentido de se motivar em caminhar. Tempo, paciência e ação na hora certa, esses parecem ser o segredo para a construção de um projeto;

b) tema deve ser construído a partir do campo de interesse pessoal do aluno. Em resumo: quanto mais o tema surgir do campo do desejo do aluno, maior será a sua viabilidade. Por mais que seja difícil, precisamos encontrar o tema que tem a ver com nossos gostos pessoais, para, depois, decompô-lo, delimitá-lo, ver sua viabilidade e operacionalidade. Cuidado, então, com essa coisa de temas da moda. Siga, inicialmente, o seu afeto para decidir o campo de pesquisa da sua monografia. Esse esforço inicial de encontrar o tema a partir de nossa dimensão afetiva faz toda a diferença.

Bem, era isso para começar. Essa carta segue como um pretexto inicial para o nosso diálogo ao longo do semestre. Não são ideais fechadas, nem dicas infalíveis. Ao contrário, essas breves ponderações atravessam parte de minha trajetória como professor, a qual também é feita não só de acertos, mas também de dúvidas e de questionamentos. No fundo, livros, cartas, monografias são pretextos para nossa autonomia a partir do conhecimento. Esse conhecimento partilhado é o que devemos fazer na universidade.

Espero ansiosamente pelas cartas que vocês me escreverão ao longo do semestre. Aguardo as respostas de vocês. Até breve.

Passo Fundo (RS), ainda inverno, 01 de agosto de 2011.

Vladimir Luz
Após um excelente café expresso.

terça-feira, 12 de julho de 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O DIREITO E AS CADEIRAS



Cadeiras até que poderiam ser apenas cadeiras. Algum dia cheguei mesmo acreditar nisso. Realmente, é mesmo útil e cômodo entender as cadeiras, assim como o mundo concreto que nos cerca, apenas como coisas. Na Faculdade de Direito, lá estão elas, as cadeiras, servis e silentes, prontas ao nosso banal uso cotidiano, acomodando nossos corpos em meio aos sincrônicos métodos de “aprendizagem”. Assim, ainda para alguns, na douta Faculdade, dia após dia, cadeiras eram apenas cadeiras, e aulas era apenas aulas.

Mas há uma vital e profunda importância nas cadeiras, um significado ainda a ser desvelado. Dei-me conta disso em meio a um desses rituais que os estudiosos chamam de “aula”. Ao entrar na sala, pude ver que as cadeiras eram, na verdade, personagens da nossa própria história, reflexo de nossas próprias condutas, espelhos vivos dos nossos medos e desejos. Cada espaço da sala, preenchido por uma cadeira, era a marca de alguma existência, o testemunho de alguma presença materializada no espaço. Percebi que estava diante de uma platéia viva. Foi assim, no início de uma aula, que procurei pela primeira vez ouvir o que me tentava me dizer aquele profundo silêncio das cadeias da Faculdade de Direito.

Como um exército disciplinado, as cadeiras da Faculdade encontravam-se perfeitamente enfileiradas, voltadas para uma única direção. “Olhando” sempre para o mesmo quadro-negro (que na verdade é verde escuro); as rígidas cadeiras deixavam de ver o belo ocaso do Vale do Bairro Canela, uma cena única e marcante, embora considerada menor perante o respeitável mundo dos futuros juristas. Vi, nos olhares congelados daqueles assentos de plástico e ferro, parte de nossa cegueira cotidiana para as coisas simples e belas. Talvez o ocaso, aquele que ocorre ao lado das salas todos os dias, seja o único a guardar a força e o mistério do ato de aprender.
Entrando nas salas, além das posições únicas, algo mais grave ocorria com as cadeiras. Elas, em sua totalidade, estavam pregadas ao solo. Assim como parte do direito “ensinado”, as cadeias passavam a me revelar, com uma nitidez incrível, a crença de estaticidade que permeia o ideário tradicional do jurista. E como se nada acontecesse − porque na verdade cadeiras são apenas cadeiras −, deixamos que isso ocorra, acostumados com uma única posição, entorpecidos com a falsa segurança dos pregos de aço que nos fixam ao chão.

Mas talvez esses sinais permaneçam propositalmente ocultos à nossa brilhante inteligência jurídica. É preciso ser louco para ouvir o silencio das cadeiras, e toda loucura é o inicio de algo novo. Ainda hoje, ao término das aulas, no apagar das luzes da Faculdade, tento ouvir e ver o silêncio das coisas, como se nelas estivessem verdadeiramente plasmadas as nossas intenções mais verdadeiras. O mármore branco, as placas de bronze, os livros de capa de couro, todos eles parte do que realmente construímos.

É possível que tudo o que percebi seja um delírio pessoal. Talvez cadeiras sejam realmente cadeiras. Mas, à noite, em reuniões clandestinas, quando os donos da verdade dormem e o Direito cochila, elas, as cadeiras, sonham ser algo mais. Querem sair do chão e voar, planando no Vale do Canela, sob a luz vermelha do ocaso. Porque sonhos são apenas sonhos, e isso já é o bastante.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

FRUTO PROIBIDO




Há quem goste de superfícies
Eu prefiro os vãos, os cantos, as fissuras antigas,
os abismos,
Aqueles espaços onde o musgo cresce lentamente

Há quem prefira amores perfeitos e finais felizes
Mas há os que preferem acreditar na beleza dos
anjos caídos
Que preferem acreditar apenas no risco, no risco de viver o imperfeito e o impreciso

Há quem goste da luz de Platão, mas eu prefiro os golpes de martelo de Nietzsche

Somos diferentes, por isso posso comer do
fruto proibido
Posso ser expulso do paraíso sem pestanejar
Assim posso ler nas entrelinhas do destino o riso jocoso do acaso
Posso, então, finalmente ser ridiculamente humano num mundo de homens iguais a monumentos de pó, de uma felicidade comprada em algum magazine

Há quem prefira palavras de carinho e juras de fidelidade
Eu prefiro o silencio do primeiro olhar
Aquele olhar que fere para sempre uma vida, que marca a ferro a pele da alma

Há quem goste da salvação eterna e verdades absolutas
Eu, de minha parte, prefiro apenas o abraço apertado de um amor fugidio
Um café bem quente (com açúcar)
E uma boa poesia

Vladimir Luz