domingo, 15 de março de 2026

HAMNET


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Agnes é alma da floresta. Foi ali que aprendeu, com sua mãe, os segredos das ervas e os mistérios da natureza. Tinha um olhar de musgo, de pedra e de abismo. Fez-se gente na inconstância das coisas, nos fluxos entre semear, cuidar e colher, nos interregnos entre vida e morte. Sabia lidar com unguentos, poções, folhas. Tal qual uma sacerdotisa, Agnes também fazia presságios, sabia das coisas do futuro. E, entre raios de sol filtrados pelas copas das árvores, nutria-se de uma força telúrica. Alimentava-se de raízes fincadas num tempo ancestral, profundo e misterioso, mas também coloquial, mundano, livre.

Esse mesmo tempo pareceu suspender-se quando seu olhar-terra encontrou o olhar-água daquele homem, um olhar tão diferente do seu que ela não teve dúvidas desde o início. E foi assim que, contrariando o presságio de que teria apenas dois filhos, da mistura entre terra e água Agnes deu à luz Susanna e aos gêmeos Judith e Hamnet. Desde então, nada mais seria como antes.

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Will era feito de palavras e de silêncios. Seu olhar era como um lago, e havia uma singela beleza na melancolia daquele olhar. Isso produzia certa estranheza, um ar unheimlich, meio gauche, pois ele parecia sempre um pouco deslocado das coisas do tato, do toque, da concretude do mundo. Pretensioso, diriam alguns. Dar aulas de latim, costurar luvas, qual seria o verdadeiro ofício de Will, esse paridor de palavras, numa sociedade forjada na rudeza dos realistas? Para muitos, ele não passava de “um homem comum, qualquer um, enganando entre a dor e o prazer”. Seu olhar-água apenas espelhava o ofício submerso de artista.

Afinal, o que seria de nós se aquilo que “não tem nome, nem nunca terá” não encontrasse abrigo na arte, essa coisa ao mesmo tempo desnecessária e fundamental? Com tal ethos, Will vivia preso ao dilema masculino de prover a vida concreta, as vicissitudes entre a sobrevivência imediata e a explosão de sentidos que lhe vinham das palavras.

 Se o mundo é nossa linguagem, o mundo de Will já não cabia mais na provinciana Stratford. Assim, partiu para Londres para “ganhar a vida”. Agnes e as crianças ficaram em Stratford,  primeiramente na casa antiga, e depois foram para a casa nova comprada com a renda que ele passou a obter com suas peças de teatro. No fundo, Will sabia que, depois daquela partida de Stratford, nada mais seria como antes.

 

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Apesar de Agnes e Will terem origens familiares marcadas pela violência parental, a família Shakespeare era feita de uma afetividade viva, presente, autêntica. A casa emanava essa vida simples, entre terra e água, rica de afetos e das singelezas do cotidiano.

Se a tarefa fundamental dos pais é legar aos filhos o inconsciente de seu desejo, Agnes e Will foram, nesse ponto, bem-sucedidos. Na família Shakespeare, a transmissão se fazia pela fusão dos desejos de ambos. Ensinar aos filhos os mistérios da vida, o uso das plantas, o cuidado com os animais, o respeito aos ciclos de morte e luto, as alquimias do passado, a coragem diante da aspereza do cotidiano, sempre acompanhada do amor pelo lúdico, pela palavra, pela arte, pelo gesto.

Quando estavam juntos, o amor de Will e Agnes impregnava a casa de uma rara afetividade partilhada. Agnes, porém, nunca esquecia a profecia de que teria apenas dois filhos. Poderia ela, mais uma vez, enganar o destino?

 

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Hamnet era um menino predestinado. Tinha muito de seu pai. Nascera subvertendo o adágio das moiras. Depois de parir Judith, Hamnet veio de surpresa, afinal, o presságio falava em apenas dois filhos. Dada como morta logo após o parto, Judith, nos braços da mãe, respirou e retornou ao mundo dos vivos. Estaria sendo a profecia burladaEntre os três irmãos, o vínculo entre os gêmeos era especialmente delicado, como se também soubessem que haviam violado o destino e que, por isso, precisassem cuidar um do outro com redobrada atenção.

Mas, quando Will estava em Londres, a sombra do destino enfim chegou. Hamnet quis exercer seu papel de curador de Judith e acabou tomando para si a doença que afligia a irmã. Antes de partir, Agnes pergunta ao menino o que ele deseja ser. Hamnet responde que quer trabalhar como o pai e atuar em peças.

Will não estava presente quando o filho morreu. Foi Agnes quem lutou contra o destino, quem o segurou nos braços, quem ouviu seus gritos de dor e enfrentou o último instante, numa dor cortante, quase impossível de nomear. Ela decidiu que não perdoaria Will, não pela morte do filho, mas por não estar ali, por não ter compartilhado aqueles últimos segundos de existência. O casamento dos Shakespeare nunca mais seria o mesmo. O olhar-terra e o olhar-água pareciam destinados a não mais se encontrar. Will continuou em Londres, até que Agnes, tomada por uma fúria silenciosa, decide ir à cidade vê-lo e assistir à peça que carregava o nome de seu filho, Hamlet.

No dia da encenação da peça, na plateia, todos estavam hipnotizados pela saga do jovem príncipe da Dinamarca, atormentado pelo desejo de vingar o assassinato do pai. Quando Agnes vê o filho em cena, revolta-se num primeiro instante, como ele ousa usar assim a memória de nosso filho? Mas, pouco a pouco, algo se desloca. Ela se deixa envolver, junto com todos os outros, pela magia que apenas a arte pode produzir. Somente a arte consegue reunir desconhecidos na mesma dor, no mesmo lugar de existência.

O jovem Hamlet, heroico, atormentado, belo, encarnava algo que todos reconheciam sem saber nomear. “Ser ou não ser” ecoava pelos corações da plateia, emocionada e atônita, dos plebeus aos nobres. E quando, perto da morte, Hamlet estende os braços e toda a plateia também estende os braços com ele, e um feixe de emoção atravessa Agnes. Pela primeira vez, ela sorri. Não é um sorriso de alegria, nem de consolo, é algo mais rofundo, como se naquele instante ela compreendesse que o desejo do filho se cumprira pela arte e que, diante da fragilidade e do desamparo da existência, estamos todos na mesma peça e no mesmo palco.

E foi assim que, da coxia, o olhar-água de Will reencontrou o olhar-terra de Agnes.

 

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Um  último registro.

Quando, ao final do filme, os braços na tela se estendem tentando alcançar a emoção da personagem, confesso ter tido a estranha sensação de presenciar algo singular, aquilo que muitos chamam de grande arte, grande beleza. Algo cujo sentido exato talvez o tempo consiga ruminar.

Não penso, assim, que Hamnet seja apenas um filme sobre o luto. O luto, como as alegrias, faz parte da vida. Hamnet é, antes, sobre a arte. Este palco sem roteiro em que, às vezes, precisamos tocar, juntos, coisas indizíveis para continuar a próxima fala, o próximo ato, mesmo que, no fim, tudo seja silêncio.