quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Fragmentos de Es (His) tórias da Assessoria Jurídica Popular na Aldeia Imbuhy


“Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar”

(Timoneiro – Paulinho da Viola)


Marc Bloch já teria dito que a grande tentação do historiador é a genealogia. A fascinação pela origem, a gênese, o inicio de tudo. Essa tentação também é um grande desafio. Afinal, como identificar, numa cadeia de fatos complexos e caóticos, a raiz fática, o ponto causal onde tudo se desenrola e faz gerar certas conseqüências e não outras? Indo além: uma grande “história” seria o conjunto de invisíveis “estórias”? Como mensurar, no mosaico da vida humana, os detalhes invisíveis de centenas, milhares de fatos? Qual o lugar, nesta narrativa que chamamos “história”, do não-dito, daquilo que esta radicado na memória pessoal e em nada mais? De quantos silêncios se faz uma grande história? Foi lá no Imbuhy que este tema me veio à mente.

**

Seu Navega é um artesão de mão cheia. Não havia canoa que passasse pelo Imbuhy que ele não desse jeito. Navega tem aquelas mãos raras, olhar apurado dos fazedores de coisas. Há pessoas, como Seu Navega, que nascem com essa inata manualidade-do-mundo. Uma habilidade concreta, inserta entre a idéia e a concretude. De uma peça bruta de madeira ele faz nascer uma escultura; seu dom é o de consertar, o de construir, o de (des)velar. Foi Ailton, seu filho, quem me disse que seu pai (Navega) foi ampliando e reformando sua casa aos pouquinhos. Como era impedido pelos militares de entrar com material, Navega ia e voltava várias vezes, de bicicleta, trazendo o material de construção em pequenas partes para levantar a laje da casa. Ailton lembra vivamente o esforço do seu pai e de sua família, na calada da noite, unidos, levantando e ampliando partes da casa que ainda hoje residem na Aldeia Imbuhy.
Foi assim que, numa reunião com os moradores do Imbuhy, pude fitar Ailton diretamente nos olhos, e ele me disse mais ou menos assim: “é por essa casa, por este esforço de meu pai que eu luto pra ficar aqui”. Nenhum arrazoado jurídico poderia ser mais convincente, para mim, do que o silêncio que se seguiu após esta confidência.
***

Quando tudo começou? Seria a partir da primeira bandeira do Brasil bordada pela Dona Iaiá? Ou a genealogia estaria no tempo em que as canoas partiam livres rumo mar adentro, e, como diz Jorginho, “se pegava os peixes de mão”? Ou a gênese estaria refletida em centenas de estórias de amor e de perda que se sucederam? Casas demolidas são apenas fragmentos de estórias? Ou tudo já vem desde quando o último Tamoio pereceu aqui por perto onde hoje há fumaça e asfalto?

Vai saber...

Por enquanto há motivos para se pensar nessas estórias inauditas que vamos colhendo aqui e ali. Afinal, Assessoria Popular não seria outra coisa, senão apurar os ouvidos e a sensibilidade? Relatos, silêncios e gestos que são como as esculturas de Seu Navega, canoas sem destino neste marzão de sentido. Talvez Warat concordasse com isso: a origem é sempre afeto.


09 de setembro de 2015
Vladimir de Carvalho Luz



Foto de Vladimir Luz. Visão frontal da praia da Aldeia Imbuhy - Niterói (RJ)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Gênio Indomável

....




Michel Onfray, professor de filosofia, tem um curioso diagnóstico: “é um paradoxo, mas nós, professores, somos feitos para não existir”. A necessidade de um “desligamento” necessário sugerido por Onfray, de uma relação pedagógica pautada na busca da autonomia dos sujeitos (alunos e professores) me faz pensar sobre o filme “Gênio Indomável”, particularmente na relação terapêutica estabelecida entre os personagens Will Huting (Matt Demon) e Sean McGuire (Robin Williams).

Will morava num subúrbio. Trabalhava em empregos de baixa qualificação, saia com os amigos para beber, se divertir e arranjava algumas brigas, as quais lhe renderam algumas detenções; mas Will possuía uma diferença, ele era o que se convencionou chamar de “gênio”; mas era um “gênio indomável”, como bem sugere o título em português (no original Good Will Huting). Ocorre que Will foi descoberto “por acaso” por um professor catedrático em matemática, quando, ao fazer a limpeza no pátio da Universidade, resolveu um dificílimo problema de matemática deixado num quadro. Finalmente descoberto o autor da façanha, uma questão urgente deveria a ser resolvida: por conta de suas arruaças, um juiz determinou que Will poderia ficar em liberdade provisória, contanto que buscasse ajuda terapêutica regular, o que foi encaminhado pelo professor que o descobriu.

Com todo gênio, Wiil era realmente indomável. Resolvia problemas de matemática cada vez mais complexos, mas, porém, sua personalidade arredia
e seu temperamento construíram uma couraça que o tentava proteger do mundo. Will criou um verdadeiro inferno para todos os terapeutas que foram procurados. Até que Sea (Robin Willams) passou a ser o seu terapeuta. Tudo mudou desde o primeiro encontro. Will. Aos poucos Will passou a ser entregar no processo terapêutico, Mas mesmo quando ambos estavam envolvidos em seus diálogos, o terapeuta olhava o relógio e dizia “times is up”. E no final, após um emocionante processo de descoberta, Will pergunta: “É o fim”? “Sim, agora é com você, ’time is up’, disse Sean. Desde então, Will não mais voltou para o trabalho que fazia antes, tinha pegado a estrada, após ter conseguido um ótimo emprego, mas preferiu primeiro encontrar a garota que amava na Califórnia.

Parece que um pouco disso tem ligação com o que Onfray falou, claro que num
contexto diferente. Educação, como processo de autonomia (terapia?), é justamente isso: saber a hora de dizer ao aluno que o tempo acabou, que é hora de se virar, mas que há ali alguém para ouvir, e não só falar, e se falar, falar apenas de experiências e não de roteiros prontos; saber que existe a hora do encontro, do diálogo, mas que também há a hora da partida, e que aprender, apesar de livros, dos professores e dos métodos milagrosos, é uma decisão pessoal. Essa concepção não desonera o professor de suas tarefas essenciais, apenas reafirma uma ideia enfraquecida em tempos atuais: a responsabilidade pessoal
do aluno em sua formação, Por isso que Onfray, inspirado em Nietzsche, pensa que professor é aquele que faz tudo para que o aluno vire mestre, que siga seu caminho, sua estrada, aquele que sabe dizer “time is up”.



P.S. Texto feito em 2011... hoje, Sol em Leão, lua em peixes... sem Robin Willams

sábado, 19 de abril de 2014

SAJU - A PRÁTICA CONCRETA DA UTOPIA


Um texto antigo, dos idos dos 90, feito um aluno comum, qualquer um ...


sexta-feira, 7 de março de 2014

ISAAC




*
As baratas continuavam a invadir a casa. Por entre frestas úmidas do grande sobrado, os pequenos insetos esgueiravam-se durante a noite, invadindo os cômodos desocupados. No piso superior, as baratas preferiam passear no estúdio abandonado, misturando-se ao pó dos quadros antigos, aproveitando a textura gasta das grossas cortinas de algodão. Já no piso inferior, o grande salão de festas era o palco predileto dos insetos silenciosos. Uma por vez, tal qual exército disciplinado, as baratas chegavam ao salão descendo pelo forro, voando pela janela, como tivessem sido convidadas para uma noite de gala. Dessa forma ordeira. elas iam se acomodando, comiam e bailavam,  dia após dia, sempre em número cada vez maior. Na medida em que crescia o número de insetos em casa, aumentava também no velho Isaac o seu amor por Laila.
**
Sentado em sua cadeira de balanço, o velho Isaac tomava seu chá da tarde. Mesmo naquela hora, o barulhinho de pequenas patas se arrastando já poderia ser ouvido. O ocaso ainda derramava suas últimas luzes nos amplos espelhos da casa, quando o velho ouviu os passos de Laila. Ah... como era possível ainda lembrar dos olhos de sua falecida esposa. Grandes olhos de cor incerta, como pontos de luz perdidos em alguma direção. Então ela chegava, quase sempre no mesmo horário, pousava suas finas mãos sobre os cansados ombros de Isaac. Ele podia sentir as afiadas unhas de Laila arranhando o seu braço. O pensava em voz alta: “mor, que saudade eu tenho de suas unhas afiadas”. Mas sempre que ele murmurava tais pensamentos as baratas não se incomodavam, continuavam impassíveis, saboreando a carne do bom velho Isaac.

***
À noite, como fazia há anos, Isaac vestiu seu terno preto. Apesar dos anos de prática, já não conseguia dar um nó simétrico. E como sempre acontecia, ao descer a grande escadaria rumo ao salão, vinha-lhe a imagem da grande festa de 1935. Lá estavam todos os seus amigos. Marcos Silva, recém-chegado do exército, e sempre com seu traje impecável. Catarina, a enigmática Catarina, vestida com panos flutuantes, falando alto, empolgada com a música e o vinho. Pais, tios, até o seu avô, Abraão, estava já. Um momento verdadeiramente inesquecível, justamente porque no meio da multidão, em pleno clima vaporoso, um olho cintilante brilhava, era ela: Laila.
Não foram necessárias palavras. Isaac lembrava-se da forma instantânea em que os dois se olharam, e, num encontro repentino dos seus corpos, passaram a dançar no imenso salão. Enquanto se embebedava com as lembranças, Isaac rodopiava no agora empoeirado salão. Como naquela noite inesquecível, agora também todos os olhos estavam voltados para o casal. Só que agora os pequeninos olhos, diminutos pontos na escuridão, não conseguiam entender tamanha empolgação do velho Isaac.

****
Após todo o ritual de lembranças, o velho Isaac ia se recolher. Deitado em sua grande cama (o espaço ao seu lado não era menor que a dor de sua alma), Isaac descansava seu velho ser fatigado de imagens. Porém, como também já vinha acontecendo há anos, antes de dormir Laila lhe acariciava o corpo, e o velho sentia na carne suas unhas afiadas, o passear delicado de suas mãos, até que ele sentia um toque úmido nos lábios. Só depois deste rápido contato, o velho Isaac poderia dormir em paz, e as baratas se despediam do bom velho, desaparecendo em seus obscuros esconderijos, à espera de um novo encontro, ansiosas por novos gestos de amor.


Vladimir Luz (Conto publicado na Revista da Academia Criciumense de  Letras, 2005)

Gravura: "En el baile" de Edward Cucuel

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A GRANDE BELEZA



"O mundo é uma obra de arte que engendra a si própria'
(Nietzsche, Vontade de Potência)



***

Não era uma questão de opção: ele estava destinado à sensibilidade. Deitado em sua cama podia ver o mar no teto com todo aquele azul intenso e infinito. Ondas, ondas. Da sacada de seu apartamento, o Coliseu se abria aos olhos como um quadro. Outrora homens ali morreram e se divertiram, sangue e risos foram gravados em cada tijolo daquelas colunas magistrais. Mas sempre ela, sempre ela, a sensibilidade. Festas, riso, dança, sexo, rotina, e sempre ela a espreitar, a sensibilidade. Ele era assim não por simples decisão, era seu mandato ser um observador metafísico, mundano, irônico e incrédulo dessas coisas intensas e ao mesmo tempo ridículas que somos. 

No meio disso tudo, por certo, havia uma busca inaudita. Quem saberá? Mas o fato mais latente é que havia uma profundidade imperceptível em toda superfície, e ele bem sabia disso. Fenomenologia, diriam os doutos. Cada detalhe, como as reentrâncias das esculturas do Capitólio,  cada gesto humano, por mais fútil e banal, espancava-lhe a sensibilidade inata e bruta. Era como não se lhe fosse dado o direito de ignorar que, mesmo com toda sua grandiosidade, há frestas no Coliseu. As ruínas são os corpos esquecidos do novo. O novo esta nas fissuras. Seres humanos participam compulsoriamente desse enredo. Basta ver o que se gravou em cavernas, papiros, pergaminhos e blogs. Pobres animais falantes, irremediavelmente jogados na consciência do constante vir-a-ser, que buscam, inconscientemente, gravar algo sólido e imemorial no presente fugidio. Tudo então se resumiria  essa longa história depois do verbo , a frestas e rugas, pedra e carne. No pó das ruínas sim, ali havia uma essência, séculos de ontologia: início e fim. Por tudo isso, amiúde ele percebia que em cada gesto humano há uma clareira, um enclave, um lugar cinza entre o velho e o novo, um campo agônico entre o grandioso e o fútil. Por isso, então, temos a arte, essa testemunha parida das coisas que só a sensibilidade captura. E ele olhava tudo isso com aquele olhar de quem já viu muito, viveu muito. E mesmo com tanto, escrevera apenas um livro. Para que mais? Para que? O final já não é por demais sabido desde o início? Festas, riso, dança, sexo, rotina e ela, sempre ela, a sensibilidade; aquela que não o deixaria nunca, mesmo agora quando tudo já tinha o cheiro ácido do tempo. Jep Gambardella acabara de completar 65 anos.

**

Li muitas coisas sobre o festejado filme de Paolo Sorrentino "La Grande Belezza". Coisas como: a influência de Fellini, Roma como cenário, a multiplicidade de temas num roteiro não linear, um conflito entre o novo e o velho, clássico e pós-moderno, uma crítica à futilidade da sociedade e à superficialidade da arte contemporânea, decadentismo, brevidade do tempo, existência, hedonismo, enfim, um filme pretensioso... Respondo a tudo isso com “Jepinho”: blá, blá, blá.

Nada disso, isoladamente, parece-me tão relevante assim. Ainda que haja, de fato, todas essas questões – o que já faria do filme algo genial –, "La Grande Belezza" trata, em verdade, de algo infinitamente relevante e sutil: a experiência da vida como uma experiência estética. Aí a coisa pega, e pega a todos nós. Ademais, não só por Roma e pelos personagens caricatos vemos a presença de Fellini em “A Grande Beleza” como dizem insistentemente os críticos. O grande maestro se faz presente no elemento onírico que atravessa todo filme, mitigado, é certo, pelo estilo próprio de Sorrentino. O que atravessa é o absurdo da realidade e do cotidiano, dos tipos humanos, o ridículo que convive com a beleza, e, em meio a tudo isso, ao lado de toda superficialidade, do medo e de todas as belezas, há sempre a grande beleza, aquela que não precisa de uma razão controladora. Ela é. Para a grande beleza, há também uma “grande arte”. É essa experiência estética em estado bruto que chega, que toca. Tudo isso é decantado finamente num roteiro propositalmente repleto de experiências e tipos humanos: o padre (cotado a Sumo Pontífice) que jocosamente foge dos assuntos sérios e espirituais e fala de receitas, a vida mundana de novos ricos e suas festas bregas, os nobres decadentes com suas mansões suntuosas, a religiosa tratada como “santa”, a pintura contemporânea feita por uma criança que joga tintas aleatoriamente em um painel. No centro do filme esta o olhar de Jep Garmbardella, um “bon vivant”, um cético jornalista que escrevera apenas um livro, e que vive os tormentos do tempo e a lembrança da mulher que amara. É neste aspecto sutil que o filme "La Grande Belezza" pode ser chamado, sem exageros, de obra-prima: exatamente pela experiência estética proporcionada pelos olhos de Jep Gambardella. Jep somos todos nós. Dessa identidade humana é que se faz a grande arte.

*

Jep Gambardella escrevera apenas um livro. O que ainda há por ser dito? Tudo já foi descoberto pela razão. As coisas inevitavelmente passam. Pessoas morrem. Frestas ficam. Cicatrizes. Talvez possamos, à noite, encontrar aquele amigo que é o guardião das chaves dos palácios para então passear por entre os salões da tradição e assim trapacear com o tempo. Talvez possamos nos fechar ao falatório do cotidiano. Ir ao silêncio dos antepassados e beber dos clássicos seu vinho raro. Tocar o mármore primevo do sentido com o cinzel utilizado pelo demiurgo que deu forma e vida a tudo isso que não se explica. Mas Jep sabia que não há escapatória: há festas, riso, dança, sexo, rotina e ela, sempre ela, a sensibilidade. No fundo, o instante desencontrado do amor é a grande arte, seja ela o que for.

Por tudo isso é que não se consegue sair do cinema imediatamente após o término de a “A Grande Beleza”. Letras descem (ondas, ondas) e lá ficamos, paralisados. Entramos em nosso Coliseu. De repente, por segundos, pairamos em um território inóspito de nós mesmos, onde girafas, cadeiras e o cinema desaparecem. É que ela, mais uma vez ela, sempre esteve ali: nesse lugar que às vezes voltamos, mesmo sabendo que tudo é um truque.

Bravo!


08.02.2014
Vladimir Luz




segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

SUA ESCRITA


Quisera eu escrever assim

Como um dia em Laranjeiras
Uma tarde em Botafogo
Um pôr-do-sol na Gávea
Um olhar perdido na Tijuca
Naves em Niterói

Escrita como um amor instantâneo
Como essas pedras colossais
Granito e suor

Quisera eu escrever assim

Com vísceras
Com alma (lavada ou não)
Ser que recusa ser ente
Pão saído do forno
Café no copo
Sono abraçado
Uma mão que se estende entre praças
Monumentos de prazer e ócio
Corpos que se devoram (na esquina do Leme)

Quisera eu escrever assim

O Rio seria palavra inaudita
Ferida
Partida
Encontro

Aí sim - eu escreveria como você.


20.01.2014

Vladimir Luz
(Revisão, diagramação e afins de Rosane Serro)



domingo, 24 de novembro de 2013

POEMA PARA DANÇAR EM CASAMENTOS

...

Quando a porta se abriu
E a voz, ao fundo, cantarolava
O sol pode se abrir
O tempo sorriu
Todos dançavam
E não havia rancor em seus olhos
Beijos do passado, nem nós atados
Apenas imagens de cristal
Caleidoscópios
Ao longe
Pés na grama, cachorros latindo
Riso discreto da menina do canto
Abraços tão forte como o vento do sul
Foi, assim, como num filme
Alaridos, serpentinas
Crianças correndo pela sala
Medos solenes em vinho
Couraças de papel
Partituras de chocolate
Amarras de algodão
Sapatos de nuvens
Portas de espuma
Carinhos de ondas
Nucas de morango
Afagos de proparoxítonas
Sexo onomatopaico
Calafrio sem pudor
Máquinas de escrever
Muitos lá-menores
Sustenidos
Com sétima
e..
Quando a porta se abriu
Solenemente
Eu pude dizer
Sim










sábado, 26 de outubro de 2013

REVOLUÇÃO


 ....


Por onde anda a sua revolução?
Talvez ela esteja escondida nos pequenos afazeres do dia
Tímida, entre o banho e o café da manhã
Acanhada, cismada, observando as cores da TV
Sua revolução abraça o travesseiro em noites de insônia
Espera ligações que nunca chegam
Em cada segundo do dia sua revolução rumina lembranças
Caiando de vermelho o céu que nos observa
O mesmo céu dos antigos, moldura do homo sacer

Por onde anda nossa revolução?
Perdida em sonhos – quiçá os mesmos de antes
Corpos perfilados, pólvora e morte
Nossa revolução se esconde nesses abraços apertados
Nesses olhares que nunca se encontrarão – quiçá outros doravante
Revolução sem ganhadores nem perdedores
Uma revolução mesquinhamente libidinal
Carne e suor

E foi assim que tudo aconteceu
A revolução chegou silenciosa
Abriu as janelas
E, num desses dias de calor carioca,
Nua
A revolução se fez



26.10.2013
Vladimir Luz







domingo, 20 de outubro de 2013

AFROEMAS – Xangô (100 anos de Vinicius de Moraes)


...



Para quem tudo foi tirado – Todos são iguais perante a Lei?
Para os que viraram coisa – famélicos do mundo!
Para os que rondam os palácios de mármore – Construídos por quem?

Eis a sombra do fogo que desce o caminho
Vermelho, sangue de tantos
Eis a justiça, epieikeia – Oxé!

Para os que erguem tribunais espúrios – atiram a primeira pedra?
Para os sacerdotes da verdade –  vendilhões que buscam templos!
Eis a sombra do trovão, Zeus – Yorubá

Para os que têm sede de justiça  – urdidura do presente
E não perdem a ternura
Jamais.

20.10.2013
Vladimir Luz


sábado, 19 de outubro de 2013

AFROEMAS – OXOSSI (100 anos de Vinicius de Moraes)


Flecha da vida - cortante
Flecha do destino

Fronte luzente, melanina
Fronte de muitos

Canto que cruza o Atlântico
Olhar penetrante, silêncio
Mata, urbe, pólis
Golpe

Flecha da vida – cortante
Flecha do destino

A força de tantos – liberdade
Vida que teima, renasce
Andar sobranceiro, vitória
Eros, Aruanda
Ofá, afeto

Flecha da vida - cortante
Flecha da vida - poesia
Sempre
    
  
19.10.2013

Vladimir Luz

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

VINICIUS


Vi partidas
Armadilhas
Vi emoções
Ilusões
E se me fecharam os olhos
Vi poesia
Vi inicios
Vinicius

18.10.2013
Vladimir Luz

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

EPÍGRAFE

...

Nem tanto amor nem tanto ódio O que mata é a indiferença
Nem vitória nem derrota O que enoja é a falta de utopia
Nem inteligência nem burrice O que nos condena é essa brutal ausência de espanto
Isso serve para mim, serve para nós...
Nem pecado nem luxúria A questão está no medo de viver
Nem tanto a juventude nem tanto velhice O tempo é um só
Nem inícios nem finais O sentido está no caminhar
Tudo isso pode não servir E que assim o seja Para mim e pra nós
10.11.2007 Vladimir Luz
Imagem: Carta do Tarot de Osho

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

METÁFORA

...



Toda verdade é pouca
Quando a imagem, Oca,
Aquece a face do destino

Toda razão é louca
Quando a vida, Pouca,
Deixa o corpo em desatino

Toda rima é rota
Quando a palavra, Solta,
Faz-se corpo libertino

E na lassidão do sentido
Tudo é flor
Tudo é parido
Tudo é dor

Talvez amor, anjo da luz
Anjo caído


04.02.2009

Vladimir Luz

Quadro de René Magritte

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

ANA LUZ

...



Vem, mãe... hoje é o dia
O dia nasce
Nascem mães
Mães parem
Parem filhos com asas
Primeiro eles titubeiam, mas saltam
E eles voam, esse filhos que sempre são filhos
Nascidos, os filhos às vezes teimam em voar
Mas vão

Vem, mãe...
O dia parte
Homens e mulheres partem
Vão e vem - sempre foi assim, e será
Pega minha mão
Aquela mão pequena, menino mirrado
Carne de sua carne, sangue do seu sangue
Espelho de tanta gente que veio antes
Antes, antes de tudo
Lá no começo de tudo
No primeiro dia no qual a primeira mãe nascida se fez

Vem, mãe
Estou aqui
Antes do verbo
No silencioso mistério do dia
Entregue a esta profunda conexão que nem a poesia recupera
Nem o tempo nem a razão capturam
Isso que chamam amor

12.09.2013

Vladimir Luz

quarta-feira, 3 de julho de 2013

MÉMORIA DO 2 DE JULHO (Parte II)

...

Se hoje fosse 2 de julho
Poderíamos encontrar Carlinhos na subida do Taboão
E com ele recitar seus poemas escritos nas provas de Física
Unidos pela luta de tantos
Memória que não se apaga, como um vento forte
... que sempre veio do leste

Se hoje fosse 2 de julho
O amor seria brasa que queima a epiderme da alma
Ferro que marca, grilhão cindindo pelo sonho
Poderíamos, então, sair até o Campo Grande
Pés na terra
Terra molhada
Nada mais além disso

Mas hoje não é 2 de julho
É tempo de outros lamentos
Dos heróis de si mesmos, que dormiam o sono cálido dos justos
E que acordaram pálidos pela luz de tantas verdades
Verdades que se levam a sério demais, como as minhas

Se hoje fosse 2 de julho
Não seria o dia do Juízo Final
Nem a redenção dos puros
Tampouco o fogo da vingança
O ardor do ódio
A revolução regada a conforto
Seria apenas um dia sem máscaras
Sem papéis ou desculpas
Culpa ou promessas eternas

Seria apenas
... 2 de Julho

Vladimir Luz
03.07.2013


 Foto de Pierre Fatumbi Verger

domingo, 23 de junho de 2013

DOMINGO


...
Quisera a minha ilusão ser igual a sua
Poderíamos cantar juntos
Bebericar amenidades em algum bar
Rolar na grama

Mas a minha ilusão é parte do todo que me faz
Visão tosca dos meus pequenos simulacros do dia-a-dia
Olhares difusos, apertos de mão
Ensaio de beijos nunca dados
Verdades consumidas por segundos
Silêncio que corta tudo e todos na esquina da linguagem
Uma paz sempre cambaliante e ébria

Pudera ser eu mais que minhas ilusões
Num mundo de Pangloss, onde tudo é como deve ser
Herói de diplomas e livros de couro
Ator ofuscado, esperando aplausos ao cair o pano
Abraço que dura o tempo da eternidade
Ah, a eternidade...

Por enquanto, resta a desconfiança
A espera, o desejo que exista algo mais além
Além-mar, além-tela, além do além
Algo como agora
Domingo



Vladimir Luz

Gravura: Escher

domingo, 2 de junho de 2013

LIRISMO URBANO

...


Coberta de sol
A cena então se fez
Repleta de solidões acompanhadas
Cheia de gente ao redor, ruído e rubor
Carros, transeuntes

E por um Instante breve
Todos os corpos pararam  
Como se fossem seu último labor
E de memória, fez-se um hino
Por lá onde desfilam todos os seres
Lugar da palavra não-dita
Lugar do instinto insone

E tudo se fez antes do inicio
Antes, bem antes do verbo
Antes mesmo de todo  silêncio
E num sopro poético

Luz 
....
Fiat Lux



02.06.2013

Vladimir luz

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

LASCIATE OGNI SPERANZA ...


...

Ouve
Eles gritam por justiça
Passeiam rápidos nas sombras
Quebram janelas
Marcam casas
Entoam cantos
Pisam em nome da pureza que não sabemos cuidar
E cobrem de exéquias os últimos sonhos

Olha
Seus dedos em riste
A pedra lançada, a primeira
A testa franzida, soberana e provecta
O corpo ereto
Eles dominam os mistérios
Sabem  do bem e do mal
E com o fogo sagrado, purgam nossos pecados
De cuja fumaça não restará lembrança

Dorme
O sono dos justos
Pois, finalmente, estamos todos salvos
Do lobo que esgueira como cordeiro
E enche de lama nossas fontes puras
Nossas tímidas consciências salvas
E ao repousar
Sonha com o amor imaculado
Invisível
Intangível
Doce
Acre como o sangue alheio
Afinal
Eles sabem o que fazem

12.12.2012

Vladimir Luz





Rodin: A porta do inferno

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

MEU PAI

...


Minha Irmã Rai me contou. Era cedinho, eu estava no berço. Meu pai chegou silencioso e apressado. Ele pegou umas roupas e se despediu dela e de mim com um afago. Rai lembra que dois homens estavam fora de casa, esperando. Dali meu pai seguiu direto para o quartel. Rai, apesar de muito jovem, nunca esqueceu essa cena: meu pai sendo preso pelos agentes do regime militar de 1964.

****

Minha avó Izabel chamava seu filho, Raimundo Batista da Luz, carinhosamente de “mundim”. Orgulhava-se do filho que tinha duas formaturas (Administração e História). De minha avó ouvi a estória de que ela teria estrategicamente enterrado os livros de “Mundim”, livros vermelhos. Naquele tempo livros eram perigosos. Os amigos o chamavam, e até hoje chamam, carinhosamente de Batistinha. A política, os amigos, a vida vivida intensamente sempre conduziu meu pai. Lembro dos tempos de APLB, dos debates da CUT, da formação do PT. Logo após a abertura, nas primeiras eleições para vereador, tenho vivamente na memória a foto de meu pai na TV, com um número (de sua candidatura). Isso era a propaganda política da época. Minha mãe guarda até hoje uma foto publicada na capa do Jornal A TARDE em que estou eu e meu pai, no Campo Grande, num dos primeiros comícios de Lula após a fundação do PT.

***

Atualmente meu pai mora em Pituaçu na cidade de Salvador, onde leva uma vida simples. Mas, qual característica de Batistinha seria mais marcante para mim? Quando falamos de nossos pais, há uma tentadora tendência de se fazer apologias, ou, contrariamente, por vezes, consciente ou inconscientemente, cometemos injustiças e distorções. Atento a estes riscos, de meu pai, esse “espírito livre”, desorganizado para as coisas materiais, ex-preso político, militante, homem alheio às demandas da “vida prática”, há um componente muito importante que hoje percebo claramente. Aos olhos da sociedade atual, para a qual uma pessoa vale pelo carro ou pela roupa de marca que usa, ou mesmo pela esperteza de pautar sua vida em estratégias estritamente pragmáticas, qual seria o legado de Batistinha? A resposta para tal indagação, que já se enunciava de forma intuitiva, veio recentemente.

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Contardo Calligaris, num Café Filosófico em que se discutia “a crise do macho”, teve que responder uma pergunta feita por uma ouvinte queixosa dos homens. Antes, Contardo sustentava a hipótese de que há, no imaginário masculino, duas questões centrais: uma, a relação complexa entre devaneio e mundo concreto, que impulsiona a psique masculina sempre rumo ao suprimento de expectativas (maternas e das mulheres em geral), que são de difícil realização, o que gera uma sedução pela quebra do cotidiano, o desejo constante pelo alhures. Outra característica, ligada à primeira, refere-se ao heroísmo da guerra como elemento determinante do ideal masculino. Nessa perspectiva, o desafio da morte que a guerra representa seria a marca da mestria masculina. Há também o movimento de despedida que marca a ida para a Guerra. Agonismo e altruísmo estariam no cerne dessa marca masculina, pautada na assunção e erotização do risco, no qual sobreviver (parte do concreto cotidiano) não é mais importante do que viver. Ao final da exposição, a referida mulher presente na plateia disse, indignada, mais ou menos o seguinte: os homens são preguiçosos, covardes. Guerra é fácil, heroísmo mesmo é a vida real, concreta, ir ao supermercado, pagar contas. Contardo sorriu. Em seguida, respondeu, em síntese:



“Vou lhe responder de um ponto de vista masculino porque é o meu ... concordo com você que é preciso de muita coragem para encarar a vida cotidiana ... é preciso de uma coragem de um tipo diferente ... o problema é que a coragem do devaneio, por exemplo, é também de considerar que a coisa mais concreta que a gente tem, a vida, não é necessariamente um valor supremo...e tem momentos nos quais é muito bom que seja assim... de novo só posso pensar nos termos que eu verdadeiramente aprendi.. nos termos da vida que aprendi com os meus pais...o meu pai era profundamente inepto do ponto de vista da vida concreta.. desse ponto de vista era um macho perfeito ... não tinha nenhuma gestão da casa ... e não sabia assinar um cheque, contrariamente a mim e meu irmão ... não sabia nem fritar um ovo... mas se não fosse pelo tipo de coragem dele talvez a Europa de hoje seria uma Europa pós-hitlerista ou nazista... essa foi a coragem dele. Precisava que alguém dissesse não, tem coisas pelas quais a gente, o filho da gente vale a pena morrer... porque não vale a pena viver dobrando a cabeça ...eu acho isso tão importante quanto... ”

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Pois bem. Mais que concordar ou não com a tese exposta por Contardo Galligaris, do jogo difuso das expectativas femininas moldando as masculinas, e todas elas sendo modificadas ao longo do tempo, algo importante emerge de minha reflexão pessoal.

A vida de meu pai foi e é a síntese de um heroísmo masculino do alhures, que hoje representa algo distante das vidas cotidianas. Não foi melhor nem pior que outras, tampouco exemplo de perfeição idealista. Longe disso. Tudo teve (e tem) um preço. Batistinha talvez não saiba, mas ele me mostrou que existem coisas pelas quais efetivamente vale a pena morrer. Se não se sabe disso, nenhuma vida, por mais confortável que seja do ponto de vista material, vale a pena de ser vivida.

15.11.2012

Vladimir Luz






sexta-feira, 12 de outubro de 2012

CAFÉ COM WARAT



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Warat acalentava a ideia de abrir uma faculdade de direito em Curitiba. Havia uma criativa corruptela que já marcava o nome da Faculdade: LAW – Luis Alberto Warat. Sua logomarca era um pinguim que sugeriria uma ruptura de padrões. Warat achava que o problema do ensino jurídico era justamente a sua “pinguinização”, com a qual juristas se comportavam, se vestiam e pensavam todos iguais. O projeto do curso era, como Warat, único. Arte com eixo básico. Locais fundamentais da escola: um circo e um café, e não salas de aulas. Ao lado das disciplinas obrigatórias, o mais importante era dança (para professores e alunos). Fui convidado para fazer parte do corpo docente deste inusitado projeto. Nem pestanejei. Fui até Curitiba algumas vezes. Numas dessas ocasiões, quando da visita in loco da Comissão da OAB, vivenciei um momento raro.

Estava em um hotel no centro de Curitiba. Desci para tomar café. Lá estava Warat. Sentei ao seu lado. Passamos boa parte da manhã conversando. Na época estava elaborando o projeto de minha tese justamente sobre uma das mais importantes reflexões waratianas: o senso comum teórico dos juristas. Luis Alberto (como era chamado por Marta Gama) falou sobre seu pai, sua infância; tratou de fatos pitorescos sobre Cossio, Nino. Falou de sua fraternal relação com Albano. Foi então que me revelou de onde nasceu a ideia do neologismo “senso comum teórico dos Juristas”. Disse que tal ideia nascera quando da leitura de Althusser (Filosofia e Filosofia espontânea dos cientistas). Eu já desconfiava das origens estruturalistas (Althusserianas ou mesmo bourdieunianas) dessa ideia, ainda que indireta ou inconscientemente.

Lembro deste momento como algo muito importante para minha trajetória, algo que marca meu currículo oculto. Naquela manhã eu não estava diante do meu ídolo de juventude, do mestre de uma geração desbravadora da critica jurídica no Brasil. Naquele momento, estavam ali duas pessoas conversando sobre coisas em comum, rindo da vida e de si mesmos, sem nenhuma pretensão “séria”. Haveria espaço para estes encontros hoje em dia, em nossas rotinas docentes? Nossos currículos lattes comportariam, em algum lugar, o item específico “café com Warat”? Aliás, pouco importa para esta lembrança coisas como lattes e rotinas pedagógicas. Lembro que, entre um gole de café e os suculentos – e hoje politicamente incorretos – ovos mexidos, Luis, o portenho-brasileiro mais baiano do mundo, dizia: “Vladimir, a vida é uma ilusão, precisamos ter as boas, as boas ilusões”.

Que assim seja.

12.10.2012
Vladimir Luz
Foto do dia em que tomei café com Warat.