Marc Bloch já teria dito que a grande
tentação do historiador é a genealogia. A fascinação pela origem, a gênese, o
inicio de tudo. Essa tentação também é um grande desafio. Afinal, como
identificar, numa cadeia de fatos complexos e caóticos, a raiz fática, o ponto
causal onde tudo se desenrola e faz gerar certas conseqüências e não outras? Indo
além: uma grande “história” seria o conjunto de invisíveis “estórias”? Como
mensurar, no mosaico da vida humana, os detalhes invisíveis de centenas,
milhares de fatos? Qual o lugar, nesta narrativa que chamamos “história”, do
não-dito, daquilo que esta radicado na memória pessoal e em nada mais? De quantos
silêncios se faz uma grande história? Foi lá no Imbuhy que este tema me veio à
mente.
**
Seu Navega é um artesão de mão cheia.
Não havia canoa que passasse pelo Imbuhy que ele não desse jeito. Navega tem
aquelas mãos raras, olhar apurado dos fazedores de coisas. Há pessoas, como Seu
Navega, que nascem com essa inata manualidade-do-mundo. Uma habilidade
concreta, inserta entre a idéia e a concretude. De uma peça bruta de madeira ele
faz nascer uma escultura; seu dom é o de consertar, o de construir, o de (des)velar.
Foi Ailton, seu filho, quem me disse que seu pai (Navega) foi ampliando e
reformando sua casa aos pouquinhos. Como era impedido pelos militares de entrar
com material, Navega ia e voltava várias vezes, de bicicleta, trazendo o
material de construção em pequenas partes para levantar a laje da casa. Ailton
lembra vivamente o esforço do seu pai e de sua família, na calada da noite,
unidos, levantando e ampliando partes da casa que ainda hoje residem na Aldeia
Imbuhy.
Foi assim que, numa reunião com os
moradores do Imbuhy, pude fitar Ailton diretamente nos olhos, e ele me disse
mais ou menos assim: “é por essa casa, por este esforço de meu pai que eu luto
pra ficar aqui”. Nenhum arrazoado jurídico poderia ser mais convincente, para
mim, do que o silêncio que se seguiu após esta confidência.
***
Quando tudo começou? Seria a partir da
primeira bandeira do Brasil bordada pela Dona Iaiá? Ou a genealogia estaria no
tempo em que as canoas partiam livres rumo mar adentro, e, como diz Jorginho,
“se pegava os peixes de mão”? Ou a gênese estaria refletida em centenas de estórias
de amor e de perda que se sucederam? Casas demolidas são apenas fragmentos de
estórias? Ou tudo já vem desde quando o último Tamoio pereceu aqui por perto
onde hoje há fumaça e asfalto?
Vai saber...
Por enquanto há motivos para se
pensar nessas estórias inauditas que vamos colhendo aqui e ali. Afinal, Assessoria
Popular não seria outra coisa, senão apurar os ouvidos e a sensibilidade? Relatos,
silêncios e gestos que são como as esculturas de Seu Navega, canoas sem destino
neste marzão de sentido. Talvez Warat concordasse com isso: a origem é sempre afeto.
09 de
setembro de 2015
Vladimir de
Carvalho Luz
Foto de Vladimir Luz. Visão frontal da praia da Aldeia Imbuhy - Niterói (RJ)
Michel Onfray,
professor de filosofia, tem um curioso diagnóstico: “é um paradoxo, mas nós,
professores, somos feitos para não existir”. A necessidade de um “desligamento”
necessário sugerido por Onfray, de uma relação pedagógica pautada na busca da
autonomia dos sujeitos (alunos e professores) me faz pensar sobre o filme “Gênio
Indomável”, particularmente na relação terapêutica estabelecida entre os
personagens Will Huting (Matt Demon) e Sean McGuire (Robin Williams).
Will morava num
subúrbio. Trabalhava em empregos de baixa qualificação, saia com os amigos para
beber, se divertir e arranjava algumas brigas, as quais lhe renderam algumas
detenções; mas Will possuía uma diferença, ele era o que se convencionou chamar
de “gênio”; mas era um “gênio indomável”, como bem sugere o título em português
(no original Good Will Huting). Ocorre que Will foi descoberto “por acaso” por
um professor catedrático em matemática, quando, ao fazer a limpeza no pátio da Universidade,
resolveu um dificílimo problema de matemática deixado num quadro. Finalmente
descoberto o autor da façanha, uma questão urgente deveria a ser resolvida: por
conta de suas arruaças, um juiz determinou que Will poderia ficar em liberdade
provisória, contanto que buscasse ajuda terapêutica regular, o que foi
encaminhado pelo professor que o descobriu.
Com todo gênio, Wiil
era realmente indomável. Resolvia problemas de matemática cada vez mais
complexos, mas, porém, sua personalidade arredia
e seu temperamento
construíram uma couraça que o tentava proteger do mundo. Will criou um
verdadeiro inferno para todos os terapeutas que foram procurados. Até que Sea
(Robin Willams) passou a ser o seu terapeuta. Tudo mudou desde o primeiro
encontro. Will. Aos poucos Will passou a ser entregar no processo terapêutico,
Mas mesmo quando ambos estavam envolvidos em seus diálogos, o terapeuta olhava
o relógio e dizia “times is up”. E no final, após um emocionante processo de
descoberta, Will pergunta: “É o fim”? “Sim, agora é com você, ’time is up’,
disse Sean. Desde então, Will não mais voltou para o trabalho que fazia antes,
tinha pegado a estrada, após ter conseguido um ótimo emprego, mas preferiu
primeiro encontrar a garota que amava na Califórnia.
Parece que um pouco
disso tem ligação com o que Onfray falou, claro que num
contexto diferente. Educação,
como processo de autonomia (terapia?), é justamente isso: saber a hora de dizer
ao aluno que o tempo acabou, que é hora de se virar, mas que há ali alguém para
ouvir, e não só falar, e se falar, falar apenas de experiências e não de
roteiros prontos; saber que existe a hora do encontro, do diálogo, mas que também
há a hora da partida, e que aprender, apesar de livros, dos professores e dos
métodos milagrosos, é uma decisão pessoal. Essa concepção não desonera o
professor de suas tarefas essenciais, apenas reafirma uma ideia enfraquecida em
tempos atuais: a responsabilidade pessoal
do aluno em sua
formação, Por isso que Onfray, inspirado em Nietzsche, pensa que professor é
aquele que faz tudo para que o aluno vire mestre, que siga seu caminho, sua
estrada, aquele que sabe dizer “time is up”.
P.S. Texto feito em 2011... hoje, Sol em Leão, lua em peixes... sem Robin Willams
As baratas continuavam a invadir
a casa. Por entre frestas úmidas do grande sobrado, os pequenos insetos
esgueiravam-se durante a noite, invadindo os cômodos desocupados. No piso superior,
as baratas preferiam passear no estúdio abandonado, misturando-se ao pó dos
quadros antigos, aproveitando a textura gasta das grossas cortinas de algodão.
Já no piso inferior, o grande salão de festas era o palco predileto dos insetos
silenciosos. Uma por vez, tal qual exército disciplinado, as baratas chegavam
ao salão descendo pelo forro, voando pela janela, como tivessem sido convidadas
para uma noite de gala. Dessa forma ordeira. elas iam se acomodando, comiam e
bailavam, dia após dia, sempre em número
cada vez maior. Na medida em que crescia o número de insetos em casa, aumentava
também no velho Isaac o seu amor por Laila.
**
Sentado em sua cadeira de
balanço, o velho Isaac tomava seu chá da tarde. Mesmo naquela hora, o
barulhinho de pequenas patas se arrastando já poderia ser ouvido. O ocaso ainda
derramava suas últimas luzes nos amplos espelhos da casa, quando o velho ouviu
os passos de Laila. Ah... como era possível ainda lembrar dos olhos de sua
falecida esposa. Grandes olhos de cor incerta, como pontos de luz perdidos em
alguma direção. Então ela chegava, quase sempre no mesmo horário, pousava suas
finas mãos sobre os cansados ombros de Isaac. Ele podia sentir as afiadas unhas
de Laila arranhando o seu braço. O pensava em voz alta: “mor, que saudade eu
tenho de suas unhas afiadas”. Mas sempre que ele murmurava tais pensamentos as
baratas não se incomodavam, continuavam impassíveis, saboreando a carne do bom
velho Isaac.
***
À noite, como fazia há anos,
Isaac vestiu seu terno preto. Apesar dos anos de prática, já não conseguia dar
um nó simétrico. E como sempre acontecia, ao descer a grande escadaria rumo ao
salão, vinha-lhe a imagem da grande festa de 1935. Lá estavam todos os seus
amigos. Marcos Silva, recém-chegado do exército, e sempre com seu traje
impecável. Catarina, a enigmática Catarina, vestida com panos flutuantes,
falando alto, empolgada com a música e o vinho. Pais, tios, até o seu avô,
Abraão, estava já. Um momento verdadeiramente inesquecível, justamente porque
no meio da multidão, em pleno clima vaporoso, um olho cintilante brilhava, era
ela: Laila.
Não foram necessárias palavras.
Isaac lembrava-se da forma instantânea em que os dois se olharam, e, num
encontro repentino dos seus corpos, passaram a dançar no imenso salão. Enquanto
se embebedava com as lembranças, Isaac rodopiava no agora empoeirado salão.
Como naquela noite inesquecível, agora também todos os olhos estavam voltados
para o casal. Só que agora os pequeninos olhos, diminutos pontos na escuridão,
não conseguiam entender tamanha empolgação do velho Isaac.
****
Após todo o ritual de lembranças,
o velho Isaac ia se recolher. Deitado em sua grande cama (o espaço ao seu lado não
era menor que a dor de sua alma), Isaac descansava seu velho ser fatigado de
imagens. Porém, como também já vinha acontecendo há anos, antes de dormir Laila
lhe acariciava o corpo, e o velho sentia na carne suas unhas afiadas, o passear
delicado de suas mãos, até que ele sentia um toque úmido nos lábios. Só depois
deste rápido contato, o velho Isaac poderia dormir em paz, e as baratas se
despediam do bom velho, desaparecendo em seus obscuros esconderijos, à espera
de um novo encontro, ansiosas por novos gestos de amor.
Vladimir Luz (Conto publicado na Revista da Academia Criciumense de Letras, 2005)
"O mundo é uma obra de arte que engendra a si própria'
(Nietzsche, Vontade de Potência)
***
Não
era uma questão de opção: ele estava destinado à sensibilidade. Deitado em sua cama
podia ver o mar no teto com todo aquele azul intenso e infinito. Ondas, ondas. Da
sacada de seu apartamento, o Coliseu se abria aos olhos como um quadro. Outrora
homens ali morreram e se divertiram, sangue e risos foram gravados em cada tijolo
daquelas colunas magistrais. Mas sempre ela, sempre ela, a sensibilidade. Festas, riso,
dança, sexo, rotina, e sempre ela a espreitar, a sensibilidade. Ele era assim
não por simples decisão, era seu mandato ser um observador metafísico, mundano,
irônico e incrédulo dessas coisas intensas e ao mesmo tempo ridículas que
somos.
No meio disso tudo, por certo, havia uma busca inaudita. Quem saberá? Mas
o fato mais latente é que havia uma profundidade imperceptível em toda
superfície, e ele bem sabia disso. Fenomenologia, diriam os doutos. Cada detalhe, como as reentrâncias das
esculturas do Capitólio, cada gesto
humano, por mais fútil e banal, espancava-lhe a sensibilidade inata e bruta. Era como não
se lhe fosse dado o direito de ignorar que, mesmo com toda sua grandiosidade, há
frestas no Coliseu. As ruínas são os corpos esquecidos do novo. O novo esta nas
fissuras. Seres humanos participam compulsoriamente desse enredo. Basta ver o que se gravou em cavernas, papiros, pergaminhos e blogs. Pobres animais falantes, irremediavelmente jogados na consciência do constante vir-a-ser, que buscam, inconscientemente, gravar algo sólido e imemorial no presente fugidio. Tudo então se resumiria – essa longa história depois do verbo –, a frestas e rugas, pedra e carne. No pó das ruínas sim, ali havia uma essência, séculos de ontologia: início e fim. Por
tudo isso, amiúde ele percebia que em cada gesto humano há uma clareira, um
enclave, um lugar cinza entre o velho e o novo, um campo agônico entre o grandioso
e o fútil. Por isso, então, temos a arte, essa testemunha parida das coisas que só a
sensibilidade captura. E ele olhava tudo isso com aquele olhar de quem já viu
muito, viveu muito. E mesmo com tanto, escrevera apenas um livro. Para que
mais? Para que? O final já não é por demais sabido desde o início? Festas,
riso, dança, sexo, rotina e ela, sempre ela, a sensibilidade; aquela que não o
deixaria nunca, mesmo agora quando tudo já tinha o cheiro ácido do tempo. Jep
Gambardella acabara de completar 65 anos.
**
Li
muitas coisas sobre o festejado filme de Paolo Sorrentino "La Grande Belezza". Coisas como: a influência
de Fellini, Roma como cenário, a multiplicidade de temas num roteiro não
linear, um conflito entre o novo e o velho, clássico e pós-moderno, uma crítica
à futilidade da sociedade e à superficialidade da arte contemporânea, decadentismo,
brevidade do tempo, existência, hedonismo, enfim, um filme pretensioso...
Respondo a tudo isso com “Jepinho”: blá, blá, blá.
Nada
disso, isoladamente, parece-me tão relevante assim. Ainda que haja, de fato,
todas essas questões – o que já faria do filme algo genial –, "La Grande Belezza" trata, em verdade, de
algo infinitamente relevante e sutil: a experiência da vida como uma experiência
estética. Aí a coisa pega, e pega a todos nós. Ademais, não só por Roma e pelos
personagens caricatos vemos a presença de Fellini em “A Grande Beleza” como
dizem insistentemente os críticos. O grande maestro se faz presente no elemento
onírico que atravessa todo filme, mitigado, é certo, pelo estilo próprio de
Sorrentino. O que atravessa é o absurdo da realidade e do cotidiano, dos tipos
humanos, o ridículo que convive com a beleza, e, em meio a tudo isso, ao lado de toda superficialidade, do medo e de todas
as belezas, há sempre a grande beleza, aquela que não precisa de uma razão
controladora. Ela é. Para a grande beleza, há também uma “grande arte”. É essa experiência estética em estado bruto que chega, que
toca. Tudo isso é decantado finamente num roteiro propositalmente repleto de
experiências e tipos humanos: o padre (cotado a Sumo Pontífice) que jocosamente foge dos assuntos sérios e
espirituais e fala de receitas, a vida mundana de novos ricos e suas festas
bregas, os nobres decadentes com suas mansões suntuosas, a religiosa tratada
como “santa”, a pintura contemporânea feita por uma criança que joga tintas aleatoriamente em um
painel. No centro do filme esta o olhar de Jep Garmbardella, um “bon vivant”,
um cético jornalista que escrevera apenas um livro, e que vive os tormentos do
tempo e a lembrança da mulher que amara. É neste aspecto sutil que o filme "La Grande Belezza" pode ser chamado, sem exageros, de obra-prima: exatamente
pela experiência estética proporcionada pelos olhos de Jep Gambardella. Jep somos todos nós. Dessa identidade humana é que se faz a grande arte.
*
Jep
Gambardella escrevera apenas um livro. O que ainda há por ser dito? Tudo já foi descoberto
pela razão. As coisas inevitavelmente passam. Pessoas morrem. Frestas ficam. Cicatrizes. Talvez
possamos, à noite, encontrar aquele amigo que é o guardião das chaves dos palácios para então passear por entre os salões da tradição e assim trapacear com o
tempo. Talvez possamos nos fechar ao falatório do cotidiano. Ir ao silêncio dos
antepassados e beber dos clássicos seu vinho raro. Tocar o mármore primevo do
sentido com o cinzel utilizado pelo demiurgo que deu forma e vida a tudo isso que não se
explica. Mas Jep sabia que não há escapatória: há festas, riso, dança, sexo,
rotina e ela, sempre ela, a sensibilidade. No fundo, o instante desencontrado do
amor é a grande arte, seja ela o que for.
Por tudo
isso é que não se consegue sair do cinema imediatamente após o término de a “A Grande Beleza”. Letras descem (ondas, ondas) e lá ficamos, paralisados. Entramos em nosso Coliseu. De repente, por segundos, pairamos em um território inóspito de nós mesmos, onde girafas, cadeiras e o cinema desaparecem. É que ela, mais uma vez ela, sempre esteve ali: nesse lugar que às vezes voltamos, mesmo sabendo que tudo
é um truque.
Quando a porta se abriu
E a voz, ao fundo, cantarolava
O sol pode se abrir
O tempo sorriu
Todos dançavam
E não havia rancor em seus olhos
Beijos do passado, nem nós atados
Apenas imagens de cristal
Caleidoscópios
Ao longe
Pés na grama, cachorros latindo
Riso discreto da menina do canto
Abraços tão forte como o vento do sul
Foi, assim, como num filme
Alaridos, serpentinas
Crianças correndo pela sala
Medos solenes em vinho
Couraças de papel
Partituras de chocolate
Amarras de algodão
Sapatos de nuvens
Portas de espuma
Carinhos de ondas
Nucas de morango
Afagos de proparoxítonas
Sexo onomatopaico
Calafrio sem pudor
Máquinas de escrever
Muitos lá-menores
Sustenidos
Com sétima
e..
Quando a porta se abriu
Solenemente
Eu pude dizer
Sim
Vem, mãe... hoje é o dia O dia nasce Nascem mães Mães parem Parem filhos com asas Primeiro eles titubeiam, mas saltam E eles voam, esse filhos que sempre são filhos Nascidos, os filhos às vezes teimam em voar Mas vão
Vem, mãe... O dia parte Homens e mulheres partem Vão e vem - sempre foi assim, e será Pega minha mão Aquela mão pequena, menino mirrado Carne de sua carne, sangue do seu sangue Espelho de tanta gente que veio antes Antes, antes de tudo Lá no começo de tudo No primeiro dia no qual a primeira mãe nascida se fez
Vem, mãe Estou aqui Antes do verbo No silencioso mistério do dia Entregue a esta profunda conexão que nem a poesia recupera Nem o tempo nem a razão capturam Isso que chamam amor
Minha Irmã Rai me contou. Era cedinho, eu estava no berço. Meu pai chegou silencioso e apressado. Ele pegou umas roupas e se despediu dela e de mim com um afago. Rai lembra que dois homens estavam fora de casa, esperando. Dali meu pai seguiu direto para o quartel. Rai, apesar de muito jovem, nunca esqueceu essa cena: meu pai sendo preso pelos agentes do regime militar de 1964.
****
Minha avó Izabel chamava seu filho, Raimundo Batista da Luz, carinhosamente de “mundim”. Orgulhava-se do filho que tinha duas formaturas (Administração e História). De minha avó ouvi a estória de que ela teria estrategicamente enterrado os livros de “Mundim”, livros vermelhos. Naquele tempo livros eram perigosos. Os amigos o chamavam, e até hoje chamam, carinhosamente de Batistinha. A política, os amigos, a vida vivida intensamente sempre conduziu meu pai. Lembro dos tempos de APLB, dos debates da CUT, da formação do PT. Logo após a abertura, nas primeiras eleições para vereador, tenho vivamente na memória a foto de meu pai na TV, com um número (de sua candidatura). Isso era a propaganda política da época. Minha mãe guarda até hoje uma foto publicada na capa do Jornal A TARDE em que estou eu e meu pai, no Campo Grande, num dos primeiros comícios de Lula após a fundação do PT.
***
Atualmente meu pai mora em Pituaçu na cidade de Salvador, onde leva uma vida simples. Mas, qual característica de Batistinha seria mais marcante para mim? Quando falamos de nossos pais, há uma tentadora tendência de se fazer apologias, ou, contrariamente, por vezes, consciente ou inconscientemente, cometemos injustiças e distorções. Atento a estes riscos, de meu pai, esse “espírito livre”, desorganizado para as coisas materiais, ex-preso político, militante, homem alheio às demandas da “vida prática”, há um componente muito importante que hoje percebo claramente. Aos olhos da sociedade atual, para a qual uma pessoa vale pelo carro ou pela roupa de marca que usa, ou mesmo pela esperteza de pautar sua vida em estratégias estritamente pragmáticas, qual seria o legado de Batistinha? A resposta para tal indagação, que já se enunciava de forma intuitiva, veio recentemente.
**
Contardo Calligaris, num Café Filosófico em que se discutia “a crise do macho”, teve que responder uma pergunta feita por uma ouvinte queixosa dos homens. Antes, Contardo sustentava a hipótese de que há, no imaginário masculino, duas questões centrais: uma, a relação complexa entre devaneio e mundo concreto, que impulsiona a psique masculina sempre rumo ao suprimento de expectativas (maternas e das mulheres em geral), que são de difícil realização, o que gera uma sedução pela quebra do cotidiano, o desejo constante pelo alhures. Outra característica, ligada à primeira, refere-se ao heroísmo da guerra como elemento determinante do ideal masculino. Nessa perspectiva, o desafio da morte que a guerra representa seria a marca da mestria masculina. Há também o movimento de despedida que marca a ida para a Guerra. Agonismo e altruísmo estariam no cerne dessa marca masculina, pautada na assunção e erotização do risco, no qual sobreviver (parte do concreto cotidiano) não é mais importante do que viver. Ao final da exposição, a referida mulher presente na plateia disse, indignada, mais ou menos o seguinte: os homens são preguiçosos, covardes. Guerra é fácil, heroísmo mesmo é a vida real, concreta, ir ao supermercado, pagar contas. Contardo sorriu. Em seguida, respondeu, em síntese:
“Vou lhe responder de um ponto de vista masculino porque é o meu ... concordo com você que é preciso de muita coragem para encarar a vida cotidiana ... é preciso de uma coragem de um tipo diferente ... o problema é que a coragem do devaneio, por exemplo, é também de considerar que a coisa mais concreta que a gente tem, a vida, não é necessariamente um valor supremo...e tem momentos nos quais é muito bom que seja assim... de novo só posso pensar nos termos que eu verdadeiramente aprendi.. nos termos da vida que aprendi com os meus pais...o meu pai era profundamente inepto do ponto de vista da vida concreta.. desse ponto de vista era um macho perfeito ... não tinha nenhuma gestão da casa ... e não sabia assinar um cheque, contrariamente a mim e meu irmão ... não sabia nem fritar um ovo... mas se não fosse pelo tipo de coragem dele talvez a Europa de hoje seria uma Europa pós-hitlerista ou nazista... essa foi a coragem dele. Precisava que alguém dissesse não, tem coisas pelas quais a gente, o filho da gente vale a pena morrer... porque não vale a pena viver dobrando a cabeça ...eu acho isso tão importante quanto... ”
*
Pois bem. Mais que concordar ou não com a tese exposta por Contardo Galligaris, do jogo difuso das expectativas femininas moldando as masculinas, e todas elas sendo modificadas ao longo do tempo, algo importante emerge de minha reflexão pessoal.
A vida de meu pai foi e é a síntese de um heroísmo masculino do alhures, que hoje representa algo distante das vidas cotidianas. Não foi melhor nem pior que outras, tampouco exemplo de perfeição idealista. Longe disso. Tudo teve (e tem) um preço. Batistinha talvez não saiba, mas ele me mostrou que existem coisas pelas quais efetivamente vale a pena morrer. Se não se sabe disso, nenhuma vida, por mais confortável que seja do ponto de vista material, vale a pena de ser vivida.
Warat acalentava a ideia de abrir
uma faculdade de direito em
Curitiba. Havia uma criativa corruptela que já marcava o nome da Faculdade: LAW – Luis Alberto Warat. Sua logomarca era um pinguim que sugeriria
uma ruptura de padrões. Warat achava que o problema do ensino jurídico era
justamente a sua “pinguinização”, com a qual juristas se comportavam, se
vestiam e pensavam todos iguais. O projeto do curso era, como Warat, único.
Arte com eixo básico. Locais fundamentais da escola: um circo e um café, e não
salas de aulas. Ao lado das disciplinas obrigatórias, o mais importante era
dança (para professores e alunos). Fui convidado para fazer parte do corpo
docente deste inusitado projeto. Nem pestanejei. Fui até Curitiba algumas
vezes. Numas dessas ocasiões, quando da visita in loco da Comissão da OAB, vivenciei um momento raro.
Estava em um hotel no centro de
Curitiba. Desci para tomar café. Lá estava Warat. Sentei ao seu lado. Passamos
boa parte da manhã conversando. Na época estava elaborando o projeto de minha
tese justamente sobre uma das mais importantes reflexões waratianas: o senso
comum teórico dos juristas. Luis Alberto (como era chamado por Marta Gama) falou
sobre seu pai, sua infância; tratou de fatos pitorescos sobre Cossio, Nino. Falou
de sua fraternal relação com Albano. Foi então que me revelou de onde nasceu a
ideia do neologismo “senso comum teórico dos Juristas”. Disse que tal ideia
nascera quando da leitura de Althusser (Filosofia e Filosofia espontânea dos
cientistas). Eu já desconfiava das origens estruturalistas (Althusserianas ou mesmo
bourdieunianas) dessa ideia, ainda que indireta ou inconscientemente.
Lembro deste momento como algo
muito importante para minha trajetória, algo que marca meu currículo oculto. Naquela
manhã eu não estava diante do meu ídolo de juventude, do mestre de uma geração
desbravadora da critica jurídica no Brasil. Naquele momento, estavam ali duas
pessoas conversando sobre coisas em comum, rindo da vida e de si mesmos, sem
nenhuma pretensão “séria”. Haveria espaço para estes encontros hoje em dia, em
nossas rotinas docentes? Nossos currículos lattes comportariam, em algum lugar,
o item específico “café com Warat”? Aliás, pouco importa para esta lembrança
coisas como lattes e rotinas pedagógicas. Lembro que, entre um gole de café e
os suculentos – e hoje politicamente incorretos – ovos mexidos, Luis, o portenho-brasileiro mais baiano do mundo, dizia: “Vladimir, a vida é uma ilusão,
precisamos ter as boas, as boas ilusões”.